setembro 25, 2010

Jogo de paciência

Prometo a mim mesma que não vou mais jogar paciência no computador. Mas como uma adicta, viciada,  lanço novamente as cartas na tela: se vier dois reis e um ás jogo só mais uma, digo a mim mesma. Então pela vigésima vez, em menos de duas horas seguidas, com intervalos para fumar um cigarro ou ir ao banheiro, jogo o jogo que aprendi na adolescência com  doce amiga e craque nas cartas.

Mas ela, ao contrário de mim, se permitia voltar ao mesmo jogo três vezes antes de encerrá-lo. Ou seja, esgotava todas as chances até vencer – ou não. Comigo é na primeira ou nunca. Raramente, ao menos que veja um erro leviano cometido por distração, volto à segunda chance. Lá pela trigésima partida minha adrenalina está a mil. Nessas horas tenho de desligar correndo o computador para evitar recaída.

 Estranho para quem me conhece, pois detesto jogos de qualquer natureza. Fui capaz de passar, incólume, por vários e incríveis cassinos de Las Vegas sem ao menos colocar uma moeda nos caça-níqueis. Não sei jogar absolutamente nada – a não ser a paciência – nem mesmo um reles “buraco”.

Ah! Desculpem, sabia sim jogar mico-preto na infância. Um joguinho bobo mas engraçado, que ganhei de aniversário não me lembro de quem. Fora isso, não sei nem ao certo distinguir os naipes das cartas. Quase sempre chamo-os  por apelidos tipo, dama de “doce de leite”, ou ás de “arvorezinha”. Isso quando jogava a paciência com cartas e tinha que dizer os nomes em voz alta. Agora, a tecnologia me poupa do vexame de ter que nominá-las diante de outros já que,  atualmente, a prática é absolutamente solitária.

Pois então chego ao ponto crucial: ao mencionar o fato ao doutor, por pura falta de assunto,  ele gesticulou a cabeça como quem sabia muito bem do que se tratava, e logo em seguida fez um questionamento que, no fundo, soava mais como uma afirmação: “por que será que as pessoas deprimidas gostam de jogar paciência?”, perguntou me olhando por cima dos óculos de grau e um leve sorriso de benevolência.

Não soube responder ao doutor. Aliás, isso, o fato de um reles jogo de paciência servir de refúgio àqueles que sofrem das dores da alma nunca me passou pela cabeça. Nem me lembro,  jamais, de algumas das minhas amigas, sendo eu a única adolescente, com algum tipo de sintoma de solidão ou coisa do gênero. Geralmente nos reuníamos todos os dias depois do lanche da tarde para nos divertir com as cartas. Eu ficava mesmo era impaciente para chegar a minha vez de dividir o único baralho entre as quatro habituées da jogatina. Éramos todas jovens, bonitas (a dona do barulho tinha sido até miss Minas Gerais), cheia de sonhos, uma fila de namorados à espreita e uma cidade repleta de tranqüilidade e sorriso. Não, decididamente ninguém era triste ou sujeita a qualquer tipo de doença da alma ou o que quer isso significasse à época.

Nossas tardes sentadas à beira da cama de Volanda (a miss) eram pura alegria.  Havia uma amizade mais que sincera entre nós quatro. E não obstante a diferença de idade entre eu e as outras três (cerca de oito ou dez anos), éramos totalmente cúmplices numa irmandade sadia em que nada, nem ninguém, conseguiria mudar nossa convivência e sentimentos.

Até hoje, quando embaralho as cartas no computador, posso lembrar-me do que uma delas dizia ao ver o jogo da outra. “Xi, essa não vai dar!”. Eram doces aquelas tardes mergulhada em puro deleite passadas num quarto simples, cheio de ternura e esperança. Na mesma cama em que jogávamos as cartas, também falávamos dos sonhos, vestidos, bailes, namorados e dividíamos, além do baralho, o único cigarro do dia além do café com pão de queijo.

Por isso ao relembrar agora a  pergunta do doutor não vejo outra explicação: jogar paciência é como lembrar a  juventude. É a perda dela, e de tudo que ela representava (e ainda representa), que dói de um jeito tão fundo que me faz praticar, de forma frenética, esse jogo chamado tão apropriadamente de paciência. Fazer o quê?

A crônica publicada hoje (dia26) no jornal Correio do Estado

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