agosto 30, 2010

A dor da impotência

Impotência é talvez uma das palavras mais tristes que existem. Ela é mais do que um sentimento, é o estado permanente de angústia, de total e absoluta impossibilidade, uma pequena morte. Imagine um dia você se dar conta de que não pode fazer nada para resolver alguma coisa. Ou pior ainda: que não há nada ao seu alcance para fazer. Você está no limbo.

Podemos ficar impotentes por alguns dias, meses, anos. O tempo não importa. A sensação, mesmo que dure pouco é aterrorizante.

Alguns mestres indianos diriam que não existe tal estado. Que tudo está em nossa mente, fruto do nosso ego. A saída, segundo eles, é apenas uma: meditar. Tentar parar essa torrente de pensamentos que nos dominam sempre que não vemos saída.

Mas cá pra nós, não sei se estamos prontos para alcançar o nirvana. Sim, porque o estado de não ser, não querer, certamente nos livraria de todo e qualquer sofrimento. Mas sinceramente, nós ocidentais, não somos capazes de simplesmente abrir mão dos nossos desejos sejam eles quais forem.

Comecei falando de impotência por motivos particulares, por conta dessas vicissitudes da vida que a maioria de nós não consegue escapar. Pode ser a perda de alguém, de alguma coisa importante, trabalho, amor, saúde, liberdade. Qualquer coisa em que algum momento percebemos que não há nada a fazer.

À medida em que escrevo, me vem à mente os mineiros que estão no Chile presos num buraco a 700 metros de profundidade.

Não consigo imaginar o desespero desses homens. Também não consigo calcular a força que possuem. Quando vejo reportagens sobre o fato, tento me imaginar na mesma situação, mas a única coisa que consigo são apenas segundos de profundo desespero.

Eles estão lá e não podem fazer absolutamente nada a não ser sobreviver. Sabem que centenas de pessoas estão fazendo alguma coisa, estão tentando resolver a situação. No entanto sabem também que a clausura não tem data certa para acabar. No máximo existem previsões, a maior parte bastante pessimista.

Faço mais uma vez o exercício de imaginar o que sentiria estar debaixo de 700 metros de terra e pedras. Não consigo. É horrível demais.

 Além do essencial, que são a luz, ar puro e a liberdade, eles não têm TV, rádio, internet, telefone, nada que os distraia da tragédia, do sufoco, da sensação de morte eminente. São homens e são frágeis porque são humanos. E a única coisa que possuem no momento é um fio de esperança. Mas a esperança não dura 24 horas por dia. Ela é efêmera, quase uma fantasia. Na calada da noite, sem nada que os conforte, duvido que algum deles não tenha vontade de chorar, gritar, até exaurir suas forças. E se alguém morrer nesse meio tempo, de angústia ou diante das próprias condições de sobrevida?

Penso nisso e não vejo mais sentido na minha impotência. Tenho ar, ainda que seco, luz, água, comida na geladeira, posso andar pela rua, assistir todos os filmes, ler todos os livros. Posso ligar para algum amigo, escrever, enlouquecer por alguns instantes. Sobretudo posso escolher.

Por pior que seja angústia no meu peito, ela jamais poderá se comparar a certeza de viver numa prisão sem grades, nem guardas, nem sentença. Uma prisão interna e externa. Isso sim é impotência. O resto, bem o resto pode ser apenas o desejo de que essa angústia passe rápido, bem rápido. Ou que tudo se resolva.

 

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