Janeiro 29, 2012

  

Muito se especulou sobre  a ausência de Leonardo DiCaprio na indicação de melhor ator ao Oscar 2012. Pessoalmente eu também fiquei um tanto desapontada com a Academia que parece não ter superado o preconceito aos galãs. Mas depois de assistir ontem ao filme “J. Edgar Hoover” estrelado por DiCaprio cheguei à conclusão de que o motivo pelo qual o ator não entrou na lista dos indicados foi um só: a péssima maquiagem que o tornou mais velho no filme.  O quesito, referência no cinema americano que sempre leva prêmios, errou feio e ainda deixou DiCaprio com a cara do Philip Seymour Hoffman. A semelhança é tamanha que,  em alguns momentos, chega-se a questionar se não é ele – Hoffman – mesmo que está na tela.  A maquiagem do amigo de Edgar (DiCaprio) também não fica atrás no quesito bizarrice. O personagem de Clyde Tolson (Armie Hammer), além de envelhecer excessivamente  o ator faz com que ele pareça uma dessas figuras de filme de terror.

Mas deixando de fora o mau gosto  e a escorregadela do maquiador, o filme é sim, muito interessante. E traz à tona a relaçao homossexual de Edgar e Tolson de uma forma delicada e sensível. Um toque de mestre da direção impecável de  Clint Eastwood que retrata J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) como um homem extremamente afetuoso com a mãe, obstinado na luta contra o comunismo e em criar um cadastro com impressões digitais que ficasse disponível para a polícia de todo o país, facilitando, assim, o trabalho dos agentes do FBI e do próprio governo. No filme fica evidente que Hoover só conseguiu apoio necessário para montar seus laboratórios, com cientistas, peritos, entre outros, após a grande repercussão do seqüestro do bebê do aviador Charles Lindbergh (Josh Lucas) – crime considerado pelos americanos como um dos mais terríveis do século passado. 

A relação de Hoover com os presidentes, o medo que ele tinha de ser demitido a cada novo mandato e os meios pelos quais ele atingia seus objetivos, também são mostrados ao longo de "J. Edgar". E não apenas isso. De acordo com a produção, o homem conservador, temido por muitos, admirado por tantos outros e defensor ferrenho do american way of life, sofria com conflitos internos devido ao amor que nutriu durante toda a vida por Clyde Tolson (Armie Hammer), seu braço direito e vice-diretor do FBI. No filme fica claro para o espectador que o relacionamento dos dois era a coisa mais sólida da vida de ambos.

Clint Eastwood optou por mostrar a história de Hoover em flashbacks, mostrando que ele era um marqueteiro excelente e que fora questionado por isso. Por não ter feito, com suas próprias mãos, as prisões de que tanto se gabava. Sim, ele era o responsável pelas investigações, mas o trabalho de campo era feito por outros agentes, subordinados a ele. É interessante ver como a história e o legado desse homem, se confundem com a história da instituição. Hoover consolidou o FBI como uma das agências mais importantes do mundo. Ele apostou em cena de crime, laboratórios, investigações de fato, numa época em que isso era bastante incomum. E recebeu muitas críticas por isso.

Em J. Edgar, Eastwood se esforça para garantir ao fundador do FBI a mesma dignidade reservada a seus grandes americanos fictícios – embora contribua de forma espetacular para a reavaliação histórica do personagem. A maior controvérsia do filme reside no tratamento dado à vida privada de Hoover. Avesso ao contato com mulheres (a ponto de impedir que elas se tornassem agentes do FBI), ele mantinha uma amizade muito próxima com seu assistente, Clyde Tolson (Armie Hammer).

Por mais de 40 anos, os dois almoçavam juntos quase todos os dias, frequentavam clubes noturnos, hospedavam-se em quartos conjugados nas férias e ficavam de mãos dadas, o que deu origem a insinuações de que eles teriam um romance. O filme reforça essa versão, com elegância. Mas os historiadores discordam. Opinam que Hoover seria rígido e vitoriano demais para manter uma relação homossexual. Sua mãe era cristã fervorosa. Ela dizia preferir um filho morto a um filho gay. O próprio Eastwood disse acreditar que o relacionamento gay nunca foi consumado.

No filme há raros momentos de intimidade física, mas as brigas e reconciliações têm ares de romance. Em uma das cenas, Hoover chora e olha-se no espelho enquanto veste um colar e um vestido da mãe. Poucos diretores conseguiriam filmar a cena sem escorregar para o ridículo. Pelas mãos de Eastwood e DiCaprio, é um dos momentos mais comoventes do filme.

 

O mesmo tom é usado para retratar a vida política do personagem, respeitando sua dimensão histórica sem perder de vista suas falhas humanas. Cenas em que Hoover chantageia figuras importantes da política americana, como o presidente Franklin Roosevelt e o ministro da Justiça Robert F. Kennedy, são entremeadas por uma narração em que ele justifica suas ações em nome do bem-estar do povo americano. Sua contribuição para os avanços da criminalística também é exaltada. O FBI foi a primeira organização a investir pesadamente em laboratórios para perícias, e as investigações lideradas por Hoover consagraram práticas como a coleta de impressões digitais. Na visão de Eastwood, são heróis falhos como Hoover os responsáveis por construir a grandeza americana – gostemos ou não deles.

Voltando ao desempenho de Leonardo DiCaprio, é necessário dizer que ele está muito bem como J. Edgar Hoover, sendo indicado ao Globo de Ouro de melhor ator em drama, mas perdeu para George Clooney por "Os Descendentes" (The Descendants – 2011). "J. Edgar" recebeu o prêmio de filme do ano concedido pelo American Film Insitute, mas foi ignorado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (AMPAS) e não recebeu nenhuma indicação ao Oscar.

Em entrevista publicada na imprensa norte americana na época do lançamento do filme, DiCaprio  descreveu J. Edgar como "um dos personagens mais desafiadores" que já interpretou na vida, dizendo: "Foi fantástico dar vida a essa pessoa, porque ele era um mistério … A partir de um aspecto de caráter, ele era apenas um grande saco de diferentes excentricidades. Você pode dizer qualquer coisa, esse cara tinha".

Na mesma entrevista, DiCaprio admitiu que adoraria ganhar um Oscar por sua interpretação em J. Edgar. Infelizmente não foi desta vez, Leo.  Culpe a maquiagem.,,

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