setembro 8, 2011

Recebi ontem este texto escrito pela antropóloga mineira, Gilda de Castro. Nele, a autora fala sobre os cinemas em Lagoa da Prata, minha terra natal e onde meu avô foi, durante muitos anos, proprietário do Cine São Carlos. O artigo sensível mostra que ainda existe um resquício de memória a ser preservado. Hoje a cidade não possui mais nenhuma sala de cinema e os cinéfilos de plantão vivem de filmes da Internet. Uma pena!

" Senti emoção singular quando vi, pela primeira vez, o filme “Cinema Paradiso”, porque a história era semelhante ao que acontecia em Lagoa da Prata, entre os anos 1950 e 1960. Revivi, então, minha infância, em cenas repletas de lirismo que se agigantavam com a trilha sonora de Ennio Morricone, transformada, depois, em hino da arte cinematográfica. Esse filme italiano inspirou, certamente, reminiscências de outros habitantes de pequenas cidades brasileiras, porque era o único lazer vinculado à modernidade das metrópoles, em meados do século XX. Ele acontecia na construção não religiosa mais suntuosa dos vilarejos, um espaço usado para teatro amador calcado em antigas produções européias.O primeiro cinema de Lagoa da Prata foi criado por Manoel Pena, em 1916, quando a aglomeração ainda era o arraial São Carlos do Pântano. Foi assumido depois pelo italiano Antônio Perillo que construiu sede própria, em frente da Matriz, denominando-o Cine Teatro São Carlos, em homenagem ao padroeiro da cidade. Não me lembro desse prédio, mas escrevi este artigo diante da sua foto, que mostra como a arquitetura apresenta traços muito semelhantes ao Cinema Paradiso de Giancaldo.Urias de Castro foi o proprietário seguinte e, em 1947, arrendou-o a José Dias, que tinha larga experiência na gestão de cinema em Santo Antônio do Monte e envolveu seus dois filhos, Ildeu e Gil Dias, para propiciar aos lagopratenses espetáculos memoráveis. Em 1957, um importante fazendeiro, Antônio Vidal, adquiriu o imóvel, demolindo a construção antiga para edificar o Cine Vera Cruz com o que havia de mais moderno em equipamentos, projeto arquitetônico e peças publicitárias. Lagoa da Prata pôde assistir, então, a partir de 1958, às melhores produções cinematográficas, extasiando-se diante de filmes, em Cinemascope, como “Assim Caminha a Humanidade”, “Spartacus” e “O Manto Sagrado”. As 720 poltronas não eram suficientes para acomodar todos os espectadores das duas sessões de sábado e domingo e muita gente garantia alta freqüência nos outros dias. O filho, José Antônio Vidal, e o genro, Lúcio de Castro, esmeravam-se na administração, especialmente no que se referia à seleção das novidades para os fins-de-semana.O Cine Vera Cruz tinha também seu Salvatore di Vitto, o Totó de “Cinema Paradiso”, pois Lauro Rocha Gomes era, aos oito anos de idade, encantado por cinema e tornou-se auxiliar do operador de projeção. Ele queria apenas assistir aos filmes de graça, mas mostrou-se tão aplicado que os proprietários decidiram, pouco tempo depois, pagar-lhe salário. O menino não realizou o sonho de trabalhar como cineasta, mas tornou-se, depois, ótimo fotógrafo.José Dias transferiu o Cine São Carlos para um galpão, na Avenida Brasil, em que funcionaram antes uma beneficiadora de arroz e uma gráfica. Manteve a mesma dignidade na gestão de cinema e isso lhe garantiu, nos anos subseqüentes, o mesmo público do luxuoso Cine Vera Cruz. Alternávamos, então, entre o “cinema de cima” e o “cinema de baixo” para apreciar 14 novos filmes por semana. Esse número era garantido pela matiné de domingo, pois a excelente produção exibida, em sessão noturna, aos domingos, nas duas casas, era reprisada na segunda-feira, medida aprovada pela população.Os dois cinemas fecharam as portas antes de 1990. Meus entrevistados não se lembram da data exata, justificando que isso sempre acontece quando o fato é doloroso. Dizem que as novas gerações não sabem como éramos felizes, embora o Totó lagopratense não conseguisse levantar a pesada lata de película de celulóide e sua mãe se irritasse com sua inexplicável paixão, mas seus amigos invejavam-no, porque via filmes com censura 14 ou 18 anos. Revi, por muitas vezes, “Cinema Paradiso”, reconhecendo que jamais sentirei tanta emoção diante de outro filme. Afinal, é lamentável que mudanças sociais das últimas décadas tenham comprometido nossa segurança e turvado nosso horizonte, apesar das fantásticas ferramentas para a comunicação em tempo real."
© Gilda de CastroTodos os direitos reservados

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