dezembro 30, 2010
Chutando o pau da barraca
 
Pois é Theresa, andei sumida, né? Estava praticando a humildade, minha amiga. Passei este tempo todo numa cidadezinha do interior fazendo trabalho voluntário num centro de recuperação para adictos. Foi meio punk, como dizem por lá. Não sei se voltei melhor ou pior, porque te confesso: conviver com a loucura alheia é pior do que conviver com a nossa. E olha, antes que você me acuse de não ter dado notícias, devo te dizer que fiz uma espécie de acordo comigo mesma e com todos as pessoas que estavam em recuperação, não escrever nada sobre o centro. É uma espécie de ética, de preservar as pessoas e o tratamento. Um dia, com o passar do tempo, talvez eu relate alguma coisa.
Voltei dois dias antes do Natal. Uma época horrível para fazer a travessia da "proteção" para o mundo exterior, eu sei. Senti na pele a drástica passagem. Cheguei em casa e a primeira notícia que recebi foi que minha filha iria trazer o namorado para passar uma semana. Junto com eles viria mais um casal de amigos. Daí já viu, né? Tive que sucumbir ao Natal, coisa que realmente eu detesto.
Foi um tal de comprar comida especial, programar menú, limpar a casa, todas estas funções que há anos eu não fazia. Menos limpar a casa, claro!
No dia 24 à tarde cismei que ia morrer. Pois é, entrei na síndrome do pânico, resultado do stress e da ansiedade. Cismei legal, acreditei que depois da meia noite, quando as pessoas saíssem para outras festas (foi o que combinei com minha filha: festa em casa só até meia noite e meia ou 1h no máximo), eu iria me sentar na poltrona com uma taça de vinho, dar o último gole e morrer. Seria uma morte tranquila, bonita até, do jeito que eu sempre quiz. E melhor ainda: bebendo um bom vinho.
Por isto, lógico, tratei de comprar o melhor vinho que meu dinheiro dava. Um branco maravilhoso da África do Sul. Foi um sufoco esconder a garrafa e ainda mantê-la gelada. Mas, ufa! consegui. Achei até que ninguém tinha notada a minha estranha alegria, numa noite que tradicionalmente não costumo ficar alegre – e muito menos acordada.
Mas o que eles queriam? Fazer festa em casa, com bebida e tudo, e eu me mantivesse sóbria? Não dá mesmo. Experimente montar uma mesa de doces maravilhosos e convidar o diabético para ficar só olhando. Você acha que ele vai resistir? Impossível.
No dia seguinte acordei meio ressaquiada mas feliz da vida. Não sei explicar mas o fato de beber, depois de 3 meses de abstinência, me deu uma felicidade incrível. É como se eu fosse absolutamente "normal", dá para entender?
Quando fico abstêmia não tenho ânimo para nada, não quero nada, só ficar deitada. Quando estou "na ativa", como dizem os alcoolistas, fico a mil, faço projetos, escrevo, ligo para os amigos e passo a ser sociável novamente.
A merda é que este estado de euforia não dura muito tempo. E logo, logo, vem a culpa, a depressão, o medo, as cobranças.
Eu queria tanto ser uma pessoa como as outras, saudável, alegre, sem neura com bebida ou deprê. Eu rezo todos os dias e peço à Deus que ele me cure dessas coisas, mas parece que ele não me ouve. Ou se ouve, faz de conta que não está nem aí.
Todos os médicos me dizem que a depressão me leva à bebida. Que ela é o meu "remédio" malvado. E como todo remédio não dá pra abusar senão faz o efeito contrário. Duro é usar em doses homeopáticas.
E olha só, decidi que vou anotar todos os sintomas da minha ansiedade, pois é ela que dá o start da deprê. Às vezes é uma coisinha à tôa, uma cena triste, uma frustraçãozinha boba, uma frase mal colocada. É que a gente é sensível demais, sabe? Somos carne viva e tudo, absolutamente tudo nos afeta de forma diferente das outras pessoas.
Bom, mas 2011 vem por aí e, mesmo não querendo fazer promessas que não posso cumprir, quero começar a escrever sobre estes sintomas. Quem sabe escrevendo-os eu consiga evitá-los?
Então, sem promessas. Apenas  a vontade, que espero seja duradoura.
Beijo pra você e para os leitores (eu tenho algum?)
Zika

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