dezembro 8, 2012

 "A vida é um sopro", uma das frases emblemáticas de Oscar Niemeyer, deu título a um documentário que tive oportunidade de assistir, logo na estréia, em Brasília. Emocionante e repleto de conversas, histórias e imagens belíssimas é um dos melhores trabalhos cinematógraficos  sobre a vida e obra arquiteto. Tive a sorte de morar e trabalhar em Brasília durante quatro anos. Sorte e prazer. A sensação de adentrar todos os dias na Esplanada dos Ministérios, ver a Praça dos Três Poderes, a Catedral, a Biblioteca Nacional, descer do ônibus próximo ao Itamaraty, e ainda trabalhar em um dos seus anexos da Câmara dos Deputados, de onde se descortina toda aquela beleza arquitetônica, era de alegria e deslumbre permanentes. Não obstante os problemas de uma capital que virou mega, Brasília é bela, acolhedora e fácil de viver. Os holofotes midiáticos, quase sempre negativos, não obstroem a beleza da cidade que tem vida própria, culturalmente efervecente, e toalmente independente da política e dos políticos que lá aportam –  e que são nada mais nada menos, representantes que nós mesmos elegemos. Brasília, na minha opinião, é a obra prima de Oscar. Tomara as futuras gerações saibam conservá-la e respeitá-la.

Neste artigo escrito pela jornalista Tereza Cruvinel, algumas pérolas do nosso ícone da arquitetura, que para nossa sorte viveu fantásticos 104 anos.

O artigo foi publicado na edição de hoje do jornal Correio Brasiliense

" Ao longo da vida, Oscar Niemeyer foi contido nas palavras e prodigioso no trabalho. Em todas as entrevistas, que foram poucas e raras, lançou pérolas reveladoras de sua personalidade, do processo criativo, de seu pensamento político e social. Um dos retratos mais completos de Niemeyer foi propiciado pelo documentário que tem por título uma frase dele, A vida é um sopro, produzido por Sacha Santa Clara e dirigido por Fabiano Maciel. Rodado em vídeo digital e 16mm no Brasil, na Argélia, na França, na Itália, nos Estados Unidos, no Uruguai, na Inglaterra e em Portugal, o documentário costura imagens de arquivo inéditas e raras. Com falas lapidares do arquiteto. Tem ainda depoimentos de José Saramago, Eduardo Galeano, Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, Eric Hobsbawn, Nelson Pereira dos Santos, Mário Soares e Chico Buarque. A TV Brasil o licenciou e exibiu algumas vezes nos últimos anos. Seguem algumas falas de Niemeyer em A vida é um sopro:
 
Brasília, o começo

A primeira vez que eu fui a Brasília de avião foi num avião militar. Eu sentei ao lado do Marechal Lott e, no caminho, ele me perguntou: "O nosso edifício vai ser clássico, não?" Então eu disse, sorrindo pra ele: "O senhor, numa guerra, o que vai querer? Arma antiga ou moderna?"

Os primeiros tempos

O Juscelino passou por aqui, me chamou, descemos juntos pra cidade e ele me disse: "Olha, eu quero fazer uma capital. Uma capital diferente. Não quero uma capital provinciana, quero uma coisa bonita, que mostre a importância do país". E foi bom, começamos a trabalhar. Eu achei Brasília longe demais, mas depois eu me acostumei com a ideia. Que a determinação de Juscelino era tanta que nós passamos a achar que tudo ia correr bem. E Brasília foi assim, uma aventura, cheia de problemas e desencontros, desconforto… a gente mal alojado. Mas havia a determinação do JK, e a coisa prosseguiu. Porque eu acho que a vida é assim. A gente tem que separar as coisas. A vida é chorar e rir a vida inteira. Aproveitar os momentos de tranquilidade e brincar um pouco. Depois, os outros, é aguentar. A vida é um sopro.

Contraste

Eu me lembro da gente trabalhando lá, frequentando as boates no meio daqueles operários, tudo vestido igual. A gente tinha até a impressão que a sociedade ia melhorar, que os homens seriam mais iguais, né? Mas não, quando inaugurou a cidade, vieram os políticos, vieram os homens de negócios, era a mesma merda, a diferença de classes, a imposição do dinheiro, dos negócios, tudo que até hoje anda por aí.

A Catedral

Eu não queria uma catedral como as antigas catedrais. Eu queria uma catedral que exprimisse o concreto. E, mesmo não sendo católico, eu me preocupei que, quando a pessoa estivesse na nave, visse o espaço infinito. Quer dizer, eu procurei uma ligação que para os católicos é importante, a ligação da nave, da terra com o céu. Eu lembro que veio um representante do papa e se espantou: "Que ideia boa!" E depois botamos os vitrais, que são muito bonitos, mas sempre deixando um espaço para que a vista pudesse subir.

Praça dos Três Poderes

E, no Brasil, às vezes, as pessoas ficam reclamando: "Mas por que a Praça dos Três Poderes não tem vegetação? Por que tanto sol?" E a gente tem que explicar isso, que é tão intuitivo… Porque ali é uma praça cívica, é diferente, tem que valorizar a arquitetura. Mediocridade ativa é uma merda!

Beleza e liberdade

O importante para nós, em todos os sentidos, é a liberdade. Tem que haver fantasia, tem que haver uma solução diferente. Isso é que é importante na arquitetura. O que vai ficar da arquitetura, o que ficou, não foram as pequenas casas, muito bem tratadas… foram as catedrais, foram as voutes, foram os grandes balanços. Beleza é importante. Você vê as pirâmides… uma coisa sem o menor sentido, mas são tão bonitas, são tão monumentais que a gente esquece a razão das pirâmides e se admira, né? Se você ficar preocupado só com a função, fica uma merda.

O fator surpresa

Quando me pedem um prédio público, por exemplo, eu procuro fazer bonito, diferente, que crie surpresa. Porque eu sei que os mais pobres não vão usufruir nada. Mas eles podem parar, ter um momento assim de prazer, de surpresa, ver uma coisa nova. É o lado assim que a arquitetura pode ser útil. O resto, quando ela tiver um programa humano, social, aí ela vai cumprir seu destino.

Coerência

Fui convidado pra fazer um trabalho grande nos Estados Unidos. Então, eu fui ao consulado e a mulher me disse: "Olha, tem visto não". "Por quê? É pessoal?" "É pessoal." Eu virei e disse: "Olha, sabe que eu tô contente. Porque, se depois de 20 anos vocês me negam o visto, é sinal de que eu não mudei".

Modo de ser

Todos temos dentro de nós um ser oculto, que nos leva pra um lado ou pra outro. O meu é esse: ele gosta das coisas, ele gosta de mulher, gosta de se divertir, gosta de chorar, se preocupa com a vida. É um sujeito complicado, não é? E nós não somos responsáveis em parte pelas nossas qualidades e defeitos. O sujeito nasce branco, preto, amarelo, azul, rico, pobre, inteligente. Então a gente tem que aceitar as pessoas como elas são. De modo que, quando eu vejo uma pessoa, eu sempre digo: "É feito uma casa, uma casa que a gente pode pintar, consertar o telhado, as paredes, mas se o projeto for ruim, fica sempre a deficiência".

O gênio e o universo

Você olha para o céu e fica espantado. É um universo fantástico que nos humilha e a gente não pode usufruir nada. A gente fica espantado é com a força da inteligência do ser humano, que nasceu feito um animal qualquer, e hoje pensa, daqui a pouco está andando pelas estrelas, conversando com os outros seres humanos que estão por essas galáxias aí. Mas, no fim, a resposta de tudo é isso: nasceu, morreu, fodeu-se.
 
Fonte: Correio Braziliense 

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