Maio 19, 2012

Na edição deste mês da revista AGente publiquei uma matéria que fiz com Almir Sater na ocasião do show 1% para Cultura . Como o papo com o músico, e amigo querido, rendeu bastante (e na revista, claro, está editado) resolvi compartilhar com os leitores a íntegra do material. Além da reportagem acrescentei também uma pequena homenagem – quase um Ode! – ao artista, em forna de crônica. Espero que gostem!. 

 

 

“Sem cultura não há turismo” – Almir Sater

No prato de Almir Sater tem dobradinha. espetinho de carne com mandioca e no copo, cerveja gelada. “Adoro comer”, diz o músico mais talentoso deste Estado e um dos maiores violeiros do Mundo. A lauta refeição, feita na Feira Central, depois do show promovido por artistas locais (intitulado “1% para a Cultura”), na Praça do Rádio, é considerada substancial para as 11 horas da noite. Mas ele nem se importa. Degusta a comida com a tranquilidade de quem come um prato de salada. “É tudo leve”, argumenta com aquele sorriso que derrete qualquer colesterol.

Após um período em que sofreu problemas na vesícula, e emagreceu 10 quilos, Almir se sente feliz em poder voltar a comer tudo o que gosta. “Passei um tempo sem conseguir ingerir quase nada!”, conta. E diz que está curado do problema graças ao famoso médium goiano, João de Deus. “Ele é uma pessoa muito especial, ficamos amigos”. O músico ficou tão fã de João de Deus que, além de passar o Natal na casa do médium, Adamantina (GO), e já fez até o papel de “ajudante de enfermagem” participando de várias cirurgias espirituais. Ficou impressionado. O fascínio pela personalidade do médium mudou os conceitos de Almir sobre espiritualidade. “Passei a acreditar no espiritismo. Deve existir mesmo algo superior, um Deus que está em algum lugar, em outra dimensão, ajudando o João a curar pessoas”. E ainda recomenda: “Você tem que ir lá!”, me aconselha. Pergunto se preciso falar em seu nome, já que o famoso médium, além de filas imensas na sua porta, tem lista considerável de celebridades habitués (até a apresentadora americana Oprah Winfrey, esteve por lá recentemente), mas ele responde: “Não precisa de nada, ele atende todo mundo!”, sorri.

Sobre o show “Manifesto 1% para a Cultura”, que ele participou no último dia 11 de Abril, na Praça do Rádio, e que reuniu mais de onze mil pessoas, junto com Tetê Espíndola,  Geraldo Simões (Chalana de Prata), Geraldo Espíndola, o filho Gabriel, entre outros amigos, Almir diz que ficou muito feliz em poder estar junto de antigos companheiros. “Meu primeiro show foi  com Geraldo, Celito e Alzira (todos Espíndolas)”, lembrou. Mas ressalva que um por cento para cultura ainda é pouco. “Mas é um começo”. Em sua opinião, o artista precisa de incentivos porque há anos vem subsidiando a cultura no País. “A meia-entrada do estudante e do idoso, tudo sai do bolso do artista. Isto deveria sair do MEC e do Ministério da Cultura”, diz, argumentando que “artista também precisa sobreviver, cuidar da família”.

Questionado por um repórter de TV sobre o fato de participar de manifestações políticas, Almir deixa claro que aquilo (o show “1% para Cultura”) não foi ato político, mas uma reivindicação justa da classe artística. “Quero distância de política, sou da música”, enfatiza. Mesmo sem se envolver diretamente na política do Estado, o artista costuma participar de eventos que dão visibilidade ao MS. Recentemente participou do evento promovido pelo Governo do Estado, no Rio Sul (Rio de Janeiro) para divulgação do turismo. Mas defende a cultura como elemento indispensável no crescimento do setor. “Sem cultura não há turismo. Não adianta ter belas paisagens e não ter tradição cultural”, constata. Sobre o Trem do Pantanal, diz que a iniciativa de retomá-lo foi boa, mas que está “faltando trecho pra ele”: “Ele é o trem do Pantanal mas não chega ao Pantanal”, brinca.

Com relação ao boom do chamado “sertanejo universitário” e outros estilos mais populares, Almir diz que este tipo de música sempre existiu e que não costuma julgar estilos. “Tem para todos os gostos. Se a música te satisfaz, tudo bem. Elas cumprem seu papel, e quem não gostar é só desligar o rádio”, diz o artista, demonstrando entusiasmo com o sucesso de músicos como Luan Santana e Michel Teló.  “Acho que é um momento muito bom na vida deles. Ninguém faz sucesso por acaso. Eles têm que aproveitar”, e arremata com sinceridade: “Espero que isto dure”.

Almir diz que o momento também é muito bom para a viola, instrumento pelo qual é apaixonado. “Tem uma excelente safra de violeiros no Brasil vindo por aí”, conta. A produção de novo disco, que segundo ele tem até bastante material, não é sua preocupação no momento. Até porque, a agenda está repleta de shows.  “Gosto mesmo é de viajar pelo Brasil tocando minha viola”, confessa.

Sempre modesto, costuma dizer que hoje toca pior que antes. Não é excesso de modéstia Almir? – pergunto, depois de assistir ao seu belo espetáculo. “Não é não. Minha técnica é que melhorou, tenho mais macetes agora; mas antes tocava mais, praticava mais”. Excesso de purismo, ou modéstia excessiva, o fato é que seu público, com certeza, não acredita nisto. Aliás, nem está preocupado se uma ou outra nota poderia sair melhor. Quem viu seus últimos shows na cidade, percebeu também que a maturidade só fez bem ao nosso melhor representante da música sul-matogrossense. Na saída da Feira, e depois de posar para inúmeras fotos com feirantes e clientes, ele para numa banca e não resiste ao melado, nem a cocada – compra pra ele e pra dar de presente. Experimenta até uma “cachacinha” que o vendedor lhe oferece. E  brinca: você não sabe o que está perdendo! Pois é, o moço é bom de música, de alma e de estômago! Benza a Deus!

 

Conversa de amigos

Falar de Almir Sater é pura redundância. Tenho orgulho de poder dizer que somos amigos há “trocentos” anos. “Desde quando éramos jovens”, como ele brinca. Fiz minha primeira entrevista com Almir lá pelos anos 1982/83 para a extinta TV Caiuás. Depois disto ele nunca mais me deu outra entrevista de verdade. A desculpa é que sei tudo sobre ele e não preciso perguntar mais nada. Quando insisto e digo que preciso fazer matéria, ele balança a cabeça, manda guardar o gravador e argumenta: ”Vamos só conversar e depois você escreve o que quiser”. E é assim que tem sido. Cada matéria é uma colcha de retalhos, com detalhes de uma conversa aqui, outra acolá, e assim a gente vai levando. Seguindo em frente, como diz a música. Afinal, escrever sobre Almir não é tarefa difícil. É antes de tudo um exercício de inspiração. E memória, claro!

Mesmo depois de ficar famoso, ser reconhecido no Brasil e no exterior como um dos grandes violonistas da atualidade, Almir não perdeu nem um milímetro de sua simplicidade. Até o figurino dos shows é o mesmo do início da carreira: camisa de manga comprida, calça folgada, faixa de pantaneiro na cintura e o chapéu na cabeça, sua marca registrada. Aliás, quando pergunto se não tem medo de ficar careca (por conta do uso excessivo do acessório de couro) ele mostra as entradas na cabeça e diz que não liga. E brinca dizendo: “chapéu é bom porque é só acordar botar na cabeça e já está penteado”.

Indispensável também é falar da sua beleza, interna e externa. Ele não esbanja charme, esparrama. Aos cinquenta – e poucos – anos e em excelente forma, Almir ainda provoca muitos suspiros da plateia feminina. E admiração em todo mundo. Nem homem, nem mulher, ninguém arreda pé até conseguir uma foto ao lado do ídolo. Que, gentil como poucos, atende sempre com sorriso de guri e olhar de pantaneiro. É moço feito terra com alma de estrela. Artista de acordes e maestro de singelezas. Ao vê-lo no palco, dedilhando com  naturalidade desconcertante as cordas do seu violão, ou da sua viola, de onde sai aquele som puro, limpo, que entra no coração da gente, a gente fica pensando que Almir é, sim,  um ser iluminado. Estrela no palco e na vida.

Na intimidade é doce, sincero, amigo, solidário. Preocupado com questões ecológicas e sustentáveis, faz plantação de grãos orgânicos em parceria com o primo, adora a vida simples do Pantanal, mas sabe que por enquanto precisa ficar em São Paulo, para acompanhar a educação dos dois filhos mais novos. Mas, claro, vive cercado pela natureza, na Serra da Cantareira, lugar de mata preservada, e onde tem tranquilidade para compor com amigos como Paulinho Simões e Renato Teixeira, andar descalço na grama, se inspirar. Da vida simples do Pantanal, Almir só não carrega mais o cigarro de palha. Parou definitivamente de fumar. “Só um charuto cubano uma vez por ano”, me contou. Cubano, claro!

Mas gosta de comer que é uma beleza. E come com gosto de dar inveja. Sabe até fazer pão integral, talvez herança genética do pai que já teve padaria. Vai saber. Faz até questão de me ensinar a receita: “Para um quilo de farinha, duas colheres de azeite, água, pitada de sal e um tablete de fermento biológico”, e explica que a massa tem que ficar bem molinha, como se fosse bolo. “Aí ele é só colocar no forno!”.  Vendo-o falar assim, dá até vontade de pegar um avião e viajar até a Serra da Cantareira só pra conferir in loco mais um de seus talentos.

E, claro, talento é o que não lhe falta. Almir compõe, toca, canta e encanta. E às vezes dá vontade de esquecer por um segundo que ele é (muito bem) comprometido com a Paula e disparar feito aquela mineirinha espevitada, encantada com tanta formosura: “Vai cantar lá em casa moço. Dou comida, cama, roupa lavada e muito pão de queijo!”. Bão demais, sô!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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  1. LÂNIO SILVÉRIO THOMÁZ disse:

    FIQUEI MUITO FELIZ EM VER ESSA ENTREVISTA, GANHEI O DIA HOJE. SÓ DE SABER QUE ELE JÁ FOI AO MÉDIUM JOÃO DE DEUS (PESSOA QUE ADMIRO MUITO) FOI MUITO BOM. PARABÉNS A QUEM ESCREVEU TUDO ISSO DO NOSSO ARTISTA.

  2. maria helena disse:

    Theresa, parabéns pela reportagem, escrita com carinho explícito, retratando de forma fiel o melhor violeiro do planeta e claro o mais encantador também. Quem não queria lhe dar comida, roupa lavada e muito pão de queijo até eu…mas brincadeiras a parte adorei a maneira que você escreveu. Tantas peculiaridades escritas de uma forma  tão simples. Já presenciei muitos shows e claro todos de casa cheia de um público que ama Almir Sater e seu trabalho maravilhoso. Benza Deus.

  3. Maria Filomena Ribeiro Fucilini disse:

     
    QUE BOM QUE AINDA EXISTEM PESSOAS COMO ALMIR SATER!!!
    QUE O SER LÁ DO ALTO O CONSERVE SEMPRE COM ESSA SIMPLICIDADE E SINGELEZA QUE ENCANTA A TODOS OS QUE O CONHECEM!!!

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