julho 9, 2012

O cinema argentino me encanta – para usar expressão comum aos portenhos. Infelizmente nem sempre temos oportunidade de assistir aos bons filmes por conta da péssima programação dos cinemas brasileiros (de Campo Grande, então, nem se fala!) que privilegia os chamados blockbusters. Felizmente temos o telecine Cult e o Max que nos proporciona um alento cultural em meio a enxurrada de filminhos sem importância. Este final de semana pude assistir dois filmes argentino que recomendo muito. Se não conseguir assistir na rede, talvez tenham que recorrer ao vídeo. Vamos aos dois:

O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado, 2009), de Mariano Cohn e Gastón Duprat

O Homem ao Lado não é um filme fácil. Tem sequências nervosas (por conta da câmera que capta algumas imagens pela metade) e às vezes pode parecer arrastado demais. Mas a história, além de atual, é uma espécie de registro da intolerância urbana.

Um casal pseudo-intelectual modernoso mora numa casa, projetada em La Plata, pelo famosa arquiteto Le Corbusier (que foi a maior inspiração do nosso Niemayer), vê sua privacidade– não tão aparente, já que a casa é alvo de visitas e olhares curiosos todo o tempo – ser ameaçada pelo vizinho tosco que começa a abrir uma janela na casa ao lado.

Uma das coisas mais comuns de acontecerem no cotidiano é algum desentendimento com o vizinho. Ora pela algazarra em horário inoportuno, ora por se intrometer demais em assuntos particulares. Os realizadores argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, através do roteiro escrito por Andrés Duprat, iniciam o drama “O Homem ao Lado” discutindo este conflito previsível, mas que receberá desdobramentos inesperados.

No filme, as reclamações por parte de Leonardo (designer de renome internacional) vão se tornando constantes e infindáveis. O vizinho, Victor (Daniel Aráoz), tenta cativar a família de todas as formas mas sem resultado. Tudo que ele quer é “um pouco do sol que eles tem de sobra”. 

Temos assim uma crônica que não resulta banal graças à existência de cenas memoráveis e ao ótimo registro que faz de gente comum, vivendo cada vez mais nos seus mundinhos sem se importar com quem vive ao lado. O desfecho é quase um soco no estômago do espectador. O filme vale cada segundo. Não só pela história, mas pela reflexão que fatalmente nos faremos após assisti-lo.

Outro excelente filme é:

As viúvas das quintas feiras – Las viudas de los jueves

Dirigido por Marcelo  Piñeyro, “As viúvas da quinta feira”, baseado no livro da escritora portenha Cláudia Piñero, trata do submundo de grandes metrópoles, encoberto por “meras aparências”. È uma novela policial que trata com inteligência e criatividade o microcosmo familiar dentro de uma comunidade que vive em um condomínio fechado de um subúrbio de Buenos Aires, aludindo com sutileza os dilemas do entorno social.

É o retrato irônico uma classe social de “novos ricos”, que, não obstante a crise econômica que atravessou a argentina dos anos 90, ascendeu socialmente e se torna obcecada pelos sinais de prosperidade. No condomínio as mães procuram manter tudo impecável como os jardins, as piscinas, embora os seus filhos estejam envoltos em delinqüências e transgressões. Os homens convivem em ambiente aparentemente maravilhoso de parcerias em esportes, diversões internas ao condomínio, embora desempregados e sem nenhuma perspectiva a não ser manter a aparência de gente bem-sucedida. Um grupo mais fechado, ou “mais seleto” de cavalheiros juntam-se num ambiente secreto, deixando de lado a filharada, as empregadas domésticas e as esposas, donde vem o título “as viúvas das quintas-feiras”, para tratar de coisas que poucos têm acesso. Mas, o quotidiano naquele mundo aparentemente cheio de tranqüilidade é tumultuado por incidentes dramáticos; três mortos são encontrados boiando numa daquelas majestosas piscinas de mansões do condomínio. Daí começa a revelação do lado escuro do condomínio de luxo. Começa a sais para o lado de fora a podridão da pequena sociedade, ostentando traições, hipocrisias e crimes. A narrativa, em flashback,  mostra aspectos de futilidades e imoralidade obscurecida pelas aparências. Nada que a gente não conheça, mas que é sempre bom lembrar.

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