outubro 27, 2012

Mais um excelente artigo do jornalista e escritor, Dante Filho
 
Acompanhei pela imprensa a performance dos "Executivos de Pedra", que ocorreu recentemente em São Paulo, em plena Avenida Paulista, e que causou estranhamento em muita gente. Dois grupos teatrais – Coletivo Pi e Desvio Coletivo – cobriram-se cada um com 5 quilos de argila e, caminhando com extrema lentidão, percorreram alguns trechos do centro eco nômico da cidade.
 
A ideia era chamar a atenção para a questão do aprisionamento do trabalho, tentando provocar uma reflexão contrária ao que se pensa comumente de que seres humanos devem se restringir a ser unidades produtivas, indivíduos que são plenos só para ganhar dinheiro, consumir, etc, desprezando valores, sentimentos, emoções.
 
Sei que no fundo trata-se de uma boutade ou licença poética, mas mesmo assim acredito que o tema mereça ser discutido em todas as suas nuances. Vivemos na era do economicismo cultural. O mundo do trabalho é cada vez mais complexo, embora ao mesmo tempo prevaleçam os conceitos de sua nefasta homogeneização por conta de um empresariado extremamente tolhido por leis trabalhistas anacrônicas.
 
Lembro-me de uma história sobre o filósofo David Hume (1711/1776): seus familiares e amigos diziam que ele era um sujeito preguiçoso, não gostava de trabalhar, dormia até tarde, enfim, uma pessoa pouco produtiva do ponto de vista operativo e instrumental.
 
Só que Hume era leitor voraz, escrevia muito, produziu as obras filosóficas que romperam com o racionalismo clássico, deixando um legado que influenciou definitivamente o pensamento moderno. Como podia se dizer que ele não gostava de trabalhar? Ao contrário: ele trabalhava exaustivamente, só que de maneira anticonvencional (até para os padrões de hoje).
 
Cito este exemplo para mostrar que em muitas modalidades profissionais termina-se valorizando demais o expediente strictu senso em detrimento do verdadeiro trabalho (criativo, inovador, repleto de motivação). Não digo aqui que não se deva haver ordem, horário pré-determinados, hierarquia funcional (claro que essas coisas são importantes em inúmeras categorias profissionais, num expressivo arco de atividades produtivas). Mas é importante que haja diferenciações conforme a natureza da divisão do trabalho, pois somente assim há inovação, produtividade e avanço da humanidade.
 
Existem gerentões obtusos por aí que creem que o sujeito só é produtivo se chega às 7 da manhã no escritório e saí às 19 horas. Esse é o critério de todos os valores. O funcionário exemplar  – e recomendável – é aquele que chega cedinho e sai tardão da noite.

Para estes tarados do expediente, horários flexíveis são inimagináveis. Esses caras não conseguem ver o tempo em que seus subordinados ficam ao telefone conversando com amigos e familiares (já que não tem outra forma de convívio social), navegando na internet, tomando cafezinho e conversando amenidades, sem contar as horas que levam para pagar suas contas e espremendo o orçamento doméstico para chegar ao fim do mês. No fim, trabalho efetivo e concentrado é pouco. Mas isso não importa: ele chegou cedo e saiu tarde. O cara é considerado muito bom de serviço.&nb sp;
 
Acredito que em atividades que exigem criação, pensamento, definição de estratégicas (como no jornalismo, publicidade, arquitetura, design etc, etc) há necessidade de espaço flexível para o exercício profissional. Não dá para ficar manietando o sujeito com horários burros, não desprezando, logicamente, questões de prazos, entrega de material e projetos. O que os “executivos de pedra” estão propondo é começar a imaginar a possibilidade de o trabalho ser algo gratificante e não uma obrigação torturante. Simples assim.
 
*jornalista de Campo Grande ( dantefilho@terra.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

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