Abril 20, 2010

 

 
Ciro caiu de quatro
VITTORIO MEDIOLI

Com isso, Lula se confirma como figura saturnal, aquela que se nutre da carne de quem quer que seja

Se é nessa terra que se pagam os pecados, parece ter chegado ao presidente Lula a conta das "maldades" aplicadas a Ciro Gomes, um despavorido lutador da causa petista nos momentos mais tenebrosos de sua história.

Foi exatamente nas águas revoltas do mensalão que Ciro, com sua retórica afiada, ajudou o prócere petista a não afundar. Foi valente defensor e conselheiro quando caíam, um depois de outro, os comandantes do partido.

Ciro não pediu nada, arregaçou as mangas e acreditou que seus préstimos cimentassem daí pra frente uma relação de parceria, elevando-o à condição de "sucessor" do próprio presidente. Assim pensou, assim acreditou e assim se pronunciou o próprio Lula quando a paisagem era árida e arrasada. Ciro despontava como o oásis, o refresco, a panaceia.

Mais do que isso, representava a tábua de salvação, o Moisés capaz de conduzir o povo de Lula além do mar avermelhado pela degola dos assessores do "presidente eu não sabia".

O conceito de Ciro aos poucos mudou,deixando de ser a única saída da crise. Lula se estabilizou sobre as cinzas e, como uma fênix, voltou a levantar voo sem necessidade do apoio de um desdenhoso guerreiro do Ceará. O presidente tirou do colete, sem consultar ninguém, Dilma. Batizou-a de "mãe do PAC" e, por ela, fez o que "nunca se viu nos últimos 500 anos".

Embora bastasse 10% do "carinho" dispensado a ela para Ciro atingir o status de "sucessor", Lula optou pela "continuidade" petista. Sentindo que até um "poste" apoiado por ele teria sérias possibilidades de sucedê-lo, passou a tratar Ciro como terceiro incômodo.

O que se passou entre eles só Deus sabe, mas a transferência de domicílio eleitoral do cangaço que dominava para a "higth tech" São Paulo, certamente se deve ao empurrão, talvez ao compromisso, do presidente.

Ciro desembarcou assim na avenida Paulista, cumprindo sua parte de malhar tucanos, e conseguiu atrair a atenção, embora fosse negativa para ele e não para os adversários. Cansou a plateia, que via nele um valentão arrogando-se redentor do Estado que mais funciona, produz e consome no país. Ciro provavelmente acreditou na missão que lhe foi dada por Lula e não entendeu as antipatias corrosivas que atraía.

Depois de muita labuta, não conseguiu sequer abrir diálogo com alguém em SP, nem ser apoiado no Nordeste, que anseia a coligação com o candidato oficial de Lula. Em São Paulo, as esquerdas apenas o ignoraram e, ainda, a bilionária Fiesp, estimulada pelo presidente Lula, tomou conta do PSB, lançando pelo partido um candidato/empresário.

Restaram ao Ciro as grades de uma jaula na qual ingenuamente entrou para daí assistir a seus sonhos virarem pó. Com isso, Lula se confirma como figura saturnal, aquela que se nutre da carne de quem quer que seja, até dos próprios filhos.

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