novembro 5, 2012

O escritor australiano, Paul Gilding, teve uma epifania em plena Times Square (Nova Iorque) e escreveu um livro sobre a crise do atual modelo de consumo. Vi a entrevista no programa Milênio (Globo News) e não pude deixar de refletir sobre o tema que há tempos me instiga. A humanidade está em crise.  E a vida, como está, segundo ele, e ao contrário da nossa vã filosofia, não  melhora o mundo dos ricos. A sociedade, segundo ele, não tem como ser forte com tanta desigualdade social. E você, caro leitor? Já parou pra pensar sobre o assunto ou, como explicou o autor, prefere continuar se enganando, acreditando que o sistema não está em declínio, mas em “crescimento”? A grande maioria dos ocidentais, que adoram imitar o modelo (visivelmente em colapso) se ilude acreditando que o poder de compra é o auge da ascensão e da prosperidade. Em outras palavras, comprar é sinônimo de felicidade. Estamos viciados em compras. Somos adictos em potencial.

E não damos importância ao fato de que os 25% da população, que anda de jatinhos e consome produtos de luxo, está desequilibrando a sociedade. E sociedade desigual não é o melhor lugar para se viver. Os milhões de pessoas que passam fome, mais cedo ou mais tarde irão se rebelar. Como os animais, precisamos de comida, água e abrigo para sobreviver. Sem isto nos tornamos feras. O  escritor conclui em sua análise  que “qualidade de vida não é viver de distrações, mas de fazer algo efetivo”. Grande reflexão!

Lançando olhar sobre esta proposta de conscientização e na necessidade de repensar o modelo econômico atual, veio à tona algo com que estou lidando atualmente. A dificuldade de sensibilizar pessoas a contribuir com causas humanitárias e a impossibilidade quase concreta – não fosse por meia dúzia que faz acontecer – de mostrar que coexistir é muito, mas muito mais importante que consumir. Atualmente envolvida com projeto numa ONG – Associação dos Renais Crônicos, que atende mais de 700 famílias em todo o Estado, percebo com nitidez a indiferença das pessoas a tudo que não faz parte do próprio umbigo. Do seu minúsculo e enfeitado universo.

Para incentivar à doação – ou a divisão, ainda que mínima de recursos -, criam-se projetos, organizam-se festas, apelos, tudo para convencer aos outros de que alguns trocados podem fazer muita diferença. Mas pouquíssimas pessoas têm a consciência da sua atitude. São, em geral, habituadas à cultura escravagista, gostam de doar os restos. A roupa que não lhes serve, a comida que não comem, o dinheiro que não lhes faz falta. Cortam a gordura temendo o colesterol ou tentando comprar um pedacinho do céu. E grande parte, ainda troca a doação por uma foto no jornal, uma referência nas colunas sociais. E se ufanam da “grande participação” nos projetos sociais. Mas ninguém, ninguém se anima a trocar a compra de um sapato, um vestido de grife, ou uma garrafa de vinho, ou ainda um novo modelo de celular, para garantir, minimamente, a comida de quem tem fome, ou o remédio para quem está doente. Achamos que isto é papel do governo. A discussão é longa, mas o governo sozinho não cumpre esta tarefa. As pessoas precisam também de nós.

Nossasociedade não vai se sustentar neste modelo de desigualdade. A conclusão não  é minha, é científica. Daqui a alguns anos não haverá mais recursos para sustentar o consumo. Os carros vão parar de andar, faltarão energia e comida, e nem todo o dinheiro do mundo poderá comprar a segurança. Pode ser que aí as pessoas finalmente vão entender que não estão fazendo sacrifício para os filhos, como antigamente, mas estão sacrificando o futuro dos próprios filhos pela simples  ilusão de felicidade, no cartão de crédito e da conta bancária. A única solução é olhar para dentro. E agir. Afinal de contas, somos todos um. E tudo ao redor, ao contrário do que parece, de alguma maneira nos afeta.

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  1. Theresa Hilcar disse:

    Novo comentário sobre seu post "Coragem para dividir – crônica da semana"
    Autor: Thiago Mendes (IP: 177.97.38.84 , 177.97.38.84.dynamic.adsl.gvt.net.br)
    Email: wthiago_@hotmail.com
    URL    :
    Whois  : http://ws.arin.net/cgi-bin/whois.pl?queryinput=177.97.38.84
    Comentário:
    Nossa, justamente sobre isto que eu estava pensando ontem…
    Estou próximo de realizar meus maiores planos de vida (carro e casa própria), só que ao me dar conta da minha "satisfação" me bateu uma infelicidade, me senti u tanto egoísta e desumano, quando eu me perguntei "E agora? O que eu fiz de bom para ser feliz? É isso mesmo que vai me trazer a felicidade um dia? Carro e Casa?" Levantei uma série de questionamentos a respeito da vida, e varei esta noite bolando planos para que minha existência tenha significado, para mim e para os outros, de forma positiva e memorável.
            Percebi que só estou feliz quando faço algo de bom pelo próximo – uma doação, por exemplo – , por mais singelo que seja, me transborda uma alegria pura e inexplicável. Por isto decidi abrir mão de todo luxo que eu almejava (não que eu não queira um conforto também), porém parei com esta busca incessante de mais e mais riqueza material, e decidi, com uma pequena ação de ponto de partida que serei, acima de tudo, FELIZ.
    Um grande abraço, Thereza! e obrigado por compartilhar suas crônicas!
     

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