Abril 18, 2011

Aprendendo sobre o desapego

Tudo é relativo. Ou melhor, dizendo, tudo, absolutamente tudo é desnecessário inclusive o que pensamos ser essencial. Passamos a vida acreditando que não podemos viver sem uma porção de coisas, algumas pessoas com mais outras com menos. Mas pense por um instante naquela pergunta: “O que você salvaria em sua casa durante um incêndio?”, ou então: “Se tivesse que deixar suas coisas e levar apenas o que coubesse numa pequena valise quais seriam suas prioridades?”. A pergunta não é apenas retórica, mas um teste filosófico para medir o nosso apego às coisas em geral. Na minha recente experiência na Índia, quando fiquei duas semanas num ashran para meditação aprendi, entre outras coisas, sobre a necessidade do desapego e principalmente aprendi que é possível sim, viver com um mínimo necessário.

Ao me preparar para a viagem recebi o sábio conselho do meu coacht de levar pouca bagagem e apenas uma ou duas mudas de roupas. Além de  prático, não usamos nossas roupas ocidentais durante o processo no Ashran. E quem viaja sabe muito bem o quanto carregar malas pesadas são um verdadeiro tormento. Mais ainda quando nosso destino é um lugar completamente diferente do que estamos acostumados. Então viajar com apenas uma mochila nas costas e uma pequena mala foi essencial para o meu conforto. Abstive-me inclusive de levar comida (isto mesmo, comida!) para agüentar a ração indiana servida três vezes por dia. A maioria, com receio da comida excessivamente apimentada, levou sua própria ração de casa. Resultado, além do peso, enfrentou a ira dos ratos no dormitório que sentiam o cheiro de alimento e invadiam as valises.

Antes de chegar ao ashram (um local tipo mosteiro) passamos em Chennai para comprar nossas vestimentas. Escolhi três túnicas e quatro calças confortáveis e só. Foi isto (mais um jeans p viajar e algumas camisetas) que usei durante todo o tempo, mais uma semana viajando entre Delhi e Agra. Claro que sentia uma ponta de inveja às vezes, quando via colegas, principalmente estrangeiros, desfilando trajes e mais trajes (indianos) chiquérrimos e diferentes a cada dia durante o processo. Entre as brasileiras teve quem levasse secador de cabelos, bobies e até maquiagem. Mas eu preferi usar o tempo para me desfazer também das máscaras externas. Se tive um excesso foi meu notebook que se revelou de muita utilidade, pois as ligações telefônicas são carésimas.

A Índia é um país de cores, tecidos maravilhosos, objetos de arte e jóias lindas. Tudo com excelentes preços. Meu guia em Agra até me aconselhou a comprar coisas para vender no Brasil, mas sinceramente não tenho vocação para mascate e nem paciência para compras. Aliás, paciência na Índia é vital para tudo, principalmente para comprar. Os preços variam conforme o tempo e sua capacidade para pechinchar. É praxe. Como sou uma pessoa sem muita, quase nenhuma paciência – mesmo na Índia – resisti a quase tudo. Apenas uma meia dúzia de presentes, dois sáris e algumas lembranças para decorar a casa nova. Se me arrependi de não ter trazido mais? Claro que sim. Principalmente para presentear amigos queridos. Mas já foi.

De volta ao Brasil, antes do tempo previsto (mas isto já é outra história) deparo-me com um apartamento em obras e sem prazo para terminar. Mas graças à minha querida amiga Elsinha, fiquei sua hóspede durante quase 20 dias. Como minhas roupas e objetos pessoais estavam em caixas na transportadora, fiquei mais este tempo vivendo apenas com a bagagem da Índia, duas roupinhas que consegui “resgatar” e dois pares de sapato.

Mudei-me há 15 dias para a nova casa, ainda em obras, com pintor, marceneiro, eletricista, encanador, todos circulando pelo pequeno espaço durante todo o dia. Minhas coisas continuavam nas caixas por falta de espaço e armário. Fiquei uma semana sem geladeira nem fogão, morando como se estivesse acampada. Mas nunca sem TV a cabo, que ninguém é de ferro! Ainda estou organizando a vida. Não há espaço nem local para guardar objetos de um apartamento que era o dobro do atual. Doei muita, muita coisa. Livros, inclusive. Além de roupas e boa parte de utensílios de cozinha, mobília e quinquilharias que a gente guarda pensando que um dia vai servir. Sou quase uma especialista em mudanças (foram mais de 20), e estou acostumada a me desfazer de coisas sem dramas. Mesmo assim vejo que ainda acumulo coisas desnecessárias.

Sei que tenho muito a aprender, principalmente sobre o desapego – material e espiritual. Agora, mais do que nunca tenho a certeza que nós precisamos de muito pouco para sobreviver. Não tenho a pretensão de ser como os indianos que vivem apenas da espiritualidade, mas sei que tenho pela frente um longo caminho a percorrer. Porque a vida nada tem a ver com que possuímos (ou pensamos possuir), mas com o que somos. E pra terminar este longo relato vou contar apenas uma passagem da Índia. Durante o processo fizemos um lindo ritual chamado de “Ritual da prosperidade”. Perguntei a um colega chileno o motivo da sua ausência no ritual e ele me respondeu simplesmente: “Por que eu não preciso de nada”. Então você deve ser muito rico, brinquei. Ele apenas sorriu e me disse: “Tudo que precisamos nesta vida é da alegria de viver, o resto vem quando temos esta alegria”.

Lição que fica: a alegria de viver é a única coisa indispensável. O resto…. o resto são ilusões.

Deixe o seu comentário