novembro 5, 2010

Minha amiga Zika está na fase da raiva. Dizem que a maioria das pessoas passa por três ou quatro períodos emocionais quando descobre que tem uma doença incurável: negação, medo, raiva, barganha até chegar à fase em que, finalmente se adaptam as condições.

Acredito que esta fase seja da raiva, pois me mandou email dizendo que este nome que inventei pra ela é “simplesmente horrível”. Que eu deveria ter escolhido outro melhor, mais bonitinho. Disse que Zika lembra uma senhora do interior de Pernambuco, que ficava na janela o dia todo – e durante a noite também, só para controlar a vida das pessoas. No email também disse que não vai mais me contar nada, nem pelo telefone, nem pessoalmente. “Agora eu que vou escrever e te mando!”, decretou.

Achei até melhor assim. Escrever não deixa de ser uma forma de ela mesma entrar em contato mais profundo com seus próprios sentimentos. Mas respondi que blog é coisa séria, que ela precisa mandar, ao menos, um texto toda semana. “Tá bom, eu mando e você coloca aí do jeito que você quiser”, consentiu.

Combinei também que ao invés de ficar falando Zika, vou simplesmente abreviar para Z.  Ela não gostou muito, mas achou melhor que o outro.

Como vêem Z está reclamando de tudo e de todos. Paciência é palavra que não consta mais no seu dicionário. Deu até pra rechaçar o gato toda vez que ele vem pro seu lado; não o coloca mais no colo, e resmunga toda vez que tem de trocar a areia da caixinha. E mais, por conta própria, anda racionando a comida do bichinho “que é pra ele não fazer tanto cocô”.

A história do gato é por conta do filme que Z assistiu há bastante tempo, chamado “28 dias” com a Sandra Bullock. A história conta sobre uma mulher que passa 28 dias numa clínica de reabilitação nos EUA e ao final do período leva pra casa mais uma tarefa: aprender a cuidar de alguma coisa, de alguém, e desapegar de outras. Isto significa, na prática, adotar um animal de estimação, cuidar de uma planta, e ficar um ano sem namorar. O gato vai indo aos trancos e barrancos (embora ela adore felinos), a planta também (um vaso de alecrim), mas no quesito namorado Z está uma fera.

“Estou há anos sem namorar, e agora que meu email no site de relacionamento tá bombando eu não posso namorar?”. Concordo, não é justo. Mas não fui eu quem escolheu seguir as regras do filme, né?

Como praticamente não tem saído de casa, Z também não tem sentido falta de beber. A não ser outro dia na saída do supermercado, me contou: “Fui me sentar um pouco, até o carro chegar, quando percebi ao meu lado uma senhora bem humilde, com uma latinha de cerveja embrulhada no plástico, sorvendo tranquilamente a bebida, sem nenhuma pressa, olhando o movimento, apreciando o dia e dando goladas longas, mas sempre pousando a lata no colo. Nessa hora entendi a diferença de quem aprecia a bebida e de quem tem necessidade de beber. Tenho quase certeza, que ela ficaria feliz apenas com aquela latinha. Ah! Que inveja!”.

É Z, é uma baita diferença. Fazer o quê?

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  1. Guilherme de Almeida disse:

    Boa pergunta.

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