setembro 27, 2012

Um homem que não quero me persegue. Na madrugada ele manda mensagens eróticas no meu celular. Há quatro anos ele persiste nas mesmas frases, mesmo tema. Ele me viu num programa de TV e desde então me persegue. O homem me confunde com a imagem da tela.  Quando tenho paciência respondo. Sou pontual e direta: não quero, não sou. Incansável este homem que usa o pronome tu nas frases de conteúdo erótico.

Confesso: por um tempo alimentei a fantasia. Excesso de romantismo tolo, síndrome de cinderela, carência e ego. Dei corda e número de telefone. Meu entusiasmo diante da corte durou até o dia em que me descobri seu objeto sexual. Não quero, digo-lhe. Mas ele não desiste. Um lado de mim ainda espera que as frases mudem. Um pequeno pedaço de mim tem esperança que ela me reconheça inteira.

Não sou a mulher da TV de cinco anos atrás, explico. Sou triste, estou envelhecendo e não tenho mais fantasias. Ele diz que se eu tivesse não seria triste. Fácil assim. O homem tem soluções prontas pra tudo, e passa a régua na minha tristeza crônica.  Ou o falo. Não quero falos, digo. Não quero homens viris. Não quero sexo. A sensualidade deixou meu corpo. Meu corpo é velho e murcho. Mas ele não sabe..

O homem me viu na TV e confundiu a imagem. É patológico, disse-lhe. Você não tem namorada? Não tem ninguém pra conversar na madrugada? Ele toma vinho e continua mandando mensagens no meu celular. Parte de mim se sente notada. A outra se frustra. Todos os dias meu espelho acusa a derrocada do tempo e dos excessos. Não me cuido mais. Cansei das aparências. Estou envelhecendo rápido todos os dias.

O homem que manda mensagens não vê nada disto. Ele não quer saber das minhas vicissitudes. Pra ele só a imagem importa. O corpo do programa de TV de cinco anos atrás é tudo que ele precisa. Seu combustível é uma imagem e um copo de vinho. Ele não quer mais nada. Não sabe nada. E mais não digo. No fundo suas mensagens me fazem sentir que ainda estou viva. Embora uma parte de mim não exista mais. E ele nunca vai entender que eu não sou apenas uma imagem. Ou sou?

Deixe o seu comentário