dezembro 11, 2010

Ao assistir a bela entrevista com Adélia Prado, feita com toda sensibilidade por Edney Silvestre, me deu saudade de Minas. Não apenas pela geografia do Estado mas, sobretudo, pelo jeito manso de viver do mineiro que, curiosamente, sempre foi algo que me irritou profundamente. Vai entender essas coisas. Mas pensando bem, acho que a “culpa” dessa recaída materna, digamos assim, tem a ver com certo deslocamento que venho sentindo em Campo Grande.

Estranho, mas bastou ficar fora por três anos e meio para toda a minha trajetória profissional e pessoal ficar totalmente no passado. Desde outubro, quando voltei definitivamente, venho experimentando essa sensação de peixe fora d’água. Ou como no filme de Wood Allen – O Dorminhoco – quando o sujeito acorda décadas depois e percebe que mundo já não é mais o mesmo.

Nem vou falar aqui do fato de não encontrar mais os conhecidos como antes, do tanto de gente nova na cidade, dos meninos que cresceram, jovens que amadureceram e velhos que envelheceram. Não vou dar uma de saudosista (embora tenha muita vontade) e dizer que a minha época é que era boa, que as pessoas eram mais amigas e solidárias, que as festas eram mais divertidas e saudáveis, que conseguir trabalho era mais fácil, que a televisão tinha mais a cara da gente do que esses programas pasteurizados e insossos de hoje; e que escrever era muito, muito mais divertido.

Não, não vou falar nada disto, pois corro o risco de ser, ainda mais, anacrônica, pra não dizer outra coisa. Envelheci, é fato. Mas isto não deveria significar ficar sujeita a rótulos, ou pior ainda, ao esquecimento. Passar dos cinqüenta, como disse num programa de TV, é como tornar-se invisível para o resto do mundo. Principalmente quando se é sozinha, quando não se tem um marido pra chamar de seu. Mulher, cinquentona, sozinha, forasteira e pensante, espanta até mosquito da dengue.

Em Brasília, uma amiga me dizia sempre: “Olha, se você pensa em retornar à sua cidade faça isto logo, senão as pessoas acabam se esquecendo de quem você é profissionalmente”. Dito e feito. Mas não é apenas na área profissional que sinto a diferença. Embora deva confessar que a ausência de trabalho é algo que deixa desesperada em certos momentos. Mas é sobretudo a falta de lugar, de um norte, de algo mais palpável que não seja apenas a escritura de um apartamento e meia dúzia de amigos fiéis. Há momentos em que tenho a sensação de estar sendo expulsa da terra que escolhi viver há mais de 30 anos. É como se ouvisse alguém dizer: “Chega, seu tempo já passou. Pode voltar pra lugar de onde veio!”

Nunca senti falta de raízes. Aliás, nunca me liguei muito nessa coisa de ter lugar, família, história, nome e sobrenome. Pra dizer bem a verdade eu sequer carrego comigo nome de família. Meu pai, por tolice ou sabedoria – nunca vou saber – preferiu me dar três nomes próprios ao invés de colocar o seu sobrenome – ou da minha mãe. Um tempo atrás até andei cogitando mudar essa situação, mas por falta de grana e excesso de burocracia acabei desistindo.

O fato é que não tenho mesmo nenhuma raiz que me prenda a algum lugar. Posso ficar ou me decidir morar em qualquer canto, desde que tenha condições de me manter economicamente. No entanto, na minha imaginação, meu lugar sempre seria aqui. Todas as vezes que corri atrás de algum sonho, acabei voltando, tempos depois, imbuída da sensação de chamamento. Mas pode ter sido apenas mais uma ilusão.

Afinal, o que é um lugar senão aquele pedaço de chão que te acolhe? O que é um lar, senão o espaço que se cria para descansar do mundo lá fora? E o que são os amigos, senão pessoas a quem você escolhe amar? E tudo isto, convenhamos, pode acontecer em qualquer canto do mundo. Então porque precisamos tanto pertencer a algum lugar, se o universo é o nosso espaço?

Mas se é assim, o que explica esta vontade, que me deu de repente, de voltar pra Minas? De morar numa cidadezinha pequena, numa casa com jardim florido, vizinhos próximos, dias mansos, a quietude e o silêncio das montanhas? Talvez seja Adélia Prado com sua sabedoria poética e a simplicidade de quem não tem outra preocupação na vida que não seja: escrever quando se tem vontade, comer quando se tem fome e beber quando se tem sede.

Talvez seja a vontade de voltar a dizer certas palavras como: “pelejando” e não ter que explicar o significado; “tirar retrato”, sem que ninguém fique rindo de mim; vontade de  “tomar café da tarde” e só tirar a mesa no dia seguinte; prosear com gente que não conheço; visitar os amigos de infância; aprender a fazer crochê em pano de prato; fazer pão de queijo ao invés de comprar pronto; poder falar de boca cheia “sou daqui mesmo”. E se nada disto ainda for suficiente, tem um negócio que não me sai da cabeça: a fervorosa Adélia vaticinou, durante a entrevista, que o mundo vai acabar em 2012. Que medo!

Verdade ou não, preciso resolver minhas sandices e dar um jeito na vida. E descobrir, de uma vez por todas, aonde é o meu lugar. Porque agora ele é só um espaço incômodo e vazio.

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