Janeiro 29, 2010

 Em Honduras os vizinhos da Embaixada brasileira reclamam dos prejuízos que tiveram durante a estadia de Zelaya. Comerciantes próximos ao local disseram que os prejuízos foram enormes, já que o local ficou cercado por seguranças durante quatro meses. A Embaixada agora é alvo de críticas, pedidos de indenização e há quem diga até que a representação brasileira não é mais bem vinda naquelas imediações.

Veja também o Editorial da Folha de São Paulo que comenta sobre o fato de a diplomacia brasileira sai de mãos vazias e com a imagem arranhada após desfecho da crise com a posse de Porfirio Lobo.

 

APÓS 128 DIAS na embaixada brasileira, o presidente deposto Manuel Zelaya partiu de Honduras para a República Dominicana. O presidente eleito, Porfirio Lobo, tomou posse e, ato contínuo, sancionou uma anistia ampla. Ela abarca tanto Zelaya -pela tentativa de aprovar uma Constituinte por plebiscito, ato considerado ilegal pelo Congresso e pela Corte Suprema- quanto os militares que o expulsaram do país, ao desamparo da lei.

Trata-se de um desfecho aceitável para a crise institucional que se arrastava desde 28 de junho de 2009, quando Zelaya foi apeado do poder. Eleições livres, como aparentemente foram as de 29 de novembro, constituem a maneira mais adequada de pôr fim a situações políticas anômalas como a hondurenha, que já durava sete meses.

Chegou a hora de fazer um balanço sereno do desempenho da diplomacia brasileira no episódio. O país condenou de imediato e com vigor a deposição de Zelaya, que qualificou como um “golpe”. Se não incentivou, ao menos tolerou a transformação do prédio da representação nacional em palanque de Zelaya a partir de 21 de setembro, quando se tornou seu “hóspede”.

Tal apoio velado chegou perto de uma ruptura do princípio de não ingerência tradicionalmente observado pelo Brasil. Planalto e Itamaraty pareciam agir com a convicção de que a presença de Zelaya na capital acabaria por forçar sua volta ao poder, condição à qual a diplomacia brasileira se aferrou.

O mínimo a constatar é que tal inflexibilidade, além da tolerância com Zelaya, se revelou ineficaz. Pode-se argumentar também que ambas resultaram danosas para o interesse nacional.

Não que Honduras seja uma peça importante no xadrez internacional. Tampouco se pode dizer que houvesse significativas relações comerciais, militares ou políticas com a república exportadora de bananas da América Central. Brasília sai do episódio, no entanto, com a imagem de ter buscado mais projetar-se do que contribuir efetivamente para a solução do impasse.

O papel real de mediador terminou exercido pelos Estados Unidos, que costuraram o acordo para a realização das eleições. Ao manter posição de princípio contrária à sua realização e recusar-se, ainda hoje, a reconhecer o governo eleito, o Itamaraty consegue apenas reforçar a ideia de que almeja credenciar-se a qualquer hora e a qualquer preço como liderança alternativa à dos EUA na América Latina.

A arte da diplomacia consiste em lograr um equilíbrio, do qual o Brasil anda longe, entre princípios e pragmatismo. Na prática, o país segue emitindo sinais de incoerência para a comunidade internacional: excede-se na defesa do que decide ser melhor para a democracia em Honduras, mas propugna a volta de Cuba -uma óbvia ditadura- à OEA, omite-se diante do autoritarismo de Chávez e flerta com o Irã, que executa oposicionistas.

Deixe o seu comentário