julho 6, 2012

“Envelhecer sim, mas pobre jamais”, foi a frase que ouvi há tempos de uma amiga que, aliás, está bem longe de ser pobre e faz de tudo, tudo mesmo, para parecer mais jovem do que é. O marketing da bilionária indústria cosmética diz que os 50 de hoje são os 40 de antigamente. Pela lógica, os 30 são os vinte; os vinte são os 10; e os meninos de 10 anos ainda nem nasceram.  O bordão popular de mulher não envelhece, mas fica loura só faz aquecer as vendas de tintura pra cabelo. Acontece que envelhecimento não tem só a ver com a aparência. O tempo, como gosta de dizer um amigo, não é apenas “construtor de ruínas” externas. As internas, mais importantes, no afetam corpo, mente e pode destruir até a dignidade. Histórias não faltam.

Escrevo sobre a questão por vários e bons motivos. Entre eles, a matéria que estou fazendo sobre a vida pós-50 para revista. Outro motivo foi a recente encontro que participei no meu prédio com uma dezena de senhorinhas, todas com mais de 80 anos. A reunião foi regada a orações, pastéis de queijo, canja de galinha e chá de hibisco. Pude ver bem o que me espera. Outro dia um amigo de 94 anos, que sempre julguei agnóstico. me disse: “E eu sou bobo de não acreditar em Deus nesta altura da vida?”.  Confesso que às vezes questiono se idosos se apegam tanto a religião por sabedoria e busca interior ou por puro medo. Ou como dizia o fazendeiro de Minas, que já foi pro andar de cima há séculos: “Padre manda a gente acreditar em Deus só pra gente ficar bonzinho aqui na terra”! Mas ele não conta porque era um sujeito ruim demais da conta!

Talvez confiar na existência de um Ser superior, um Pai amoroso e piedoso é realmente a única esperança que resta a todos que estão a caminho da velhice. Principalmente no País em que vivemos, onde a juventude é tudo e mais alguma coisa. Mas para contemporizar a situação e todas as vicissitudes dos idosos, inventaram uma espécie de alcunha para idosos – a “Melhor idade”. "Uma palhaçada", como disse a jovem de 75 anos que entrevistei. Melhor idade pra quem, cara pálida? Só se for da Rainha Mãe que sempre teve vida nababesca na corte inglesa e até pouquíssimo tempo antes de morrer, passava temporadas semestrais num famosa SPA na Suíça e fazia questão de levar seu estoque de champanhe Cristal, considerado seu néctar da juventude. Quem me contou esta história foi um médico que estagiava na tal clínica e até tomou algumas taças com sua majestade. Nada como envelhecer na Corte da Inglaterra.

Enquanto isto, enquanto os nobres e milionários (sem esquecer da classe política) dispõem de todos os recursos para envelhecer com dignidade, nós os Brazucas de plantão, fazemos papel de bobos da corte. Ter mais de 50 anos neste Brasil varonil é quase um acinte – pra não dizer, uma piada. Não somos apenas ignorados, invisíveis.  Somos um peso. Público e privado. No mercado de trabalho, quem passou dos 50 é preterido por dois de vinte. È a matemática da experiência versus baixo custo. Viva o capitalismo!

E quando finalmente vamos reivindicar todos os anos de impostos e contribuições pagas ao governo, o sistema responde com carimbos, burocracia e a indiferença com tecnologia. E pedem mais documentos para protelar, indefinidamente, seu justo descanso remunerado – ainda que parcamente. Afinal, alguém tem que pagar pelos alardeados desvios da Previdência. E quem melhor pagador do que aqueles que estão com títulos de eleitores prestes a expirar? Por que não explorar – mais – aqueles que não podem mais contribuir com os cofres públicos? Ainda não entendemos que nossos caraminguás de uma vida de trabalho estão sendo usados para custear as aposentadorias (às vezes mais de uma) milionárias dos nossos representantes públicos. Além disto, temos que pagar a conta dos melhores hospitais particulares do País – e até do exterior –  para os digníssimos escolhidos – por nós, é bom ressaltar. Quem não tem, deve pagar para aquele que tem. É o preço da chamada democracia dos tolos, caros brasileiros.

Fui perguntar para a amiga e advogada sobre a sensação de estar nos “enta”,e  ela respondeu de pronto: “O pior foi descobrir que meu seguro saúde dobrou de valor”. Não são as rugas que nos atrapalham, são os roubos. Quem disse que envelhecer significa onerar os planos de saúde? Pra mim deveria ser exatamente o contrário: depois dos 50 deviam baratear os planos. Afinal, velho, supostamente vai usar por menos tempo os serviços das tais empresas. As doenças que mais matam no mundo (câncer e coração) e que demandam os mais altos custos médicos e hospitalares, não é privilégio de quem está na meia idade, ou já passou dela. Os acidentes de carro e moto  (outra causa importante, principalmente em CG), em sua imensa maioria, são cometidos por jovens. Não por senhores e senhoras mais responsáveis, e menos afoitos no trânsito.

Por tudo isto, e mais uma centena de motivos que contribuem, diariamente, com minha indignação pelo tratamento que o Brasil não dá aos seus idosos, é que não pude discordar da simpática senhora de 95 anos (que não se sente com 85, como quer o marketing) ao bater sua bengala na calçada esburacada e desabafar: “Estou rezando para Deus me chamar logo!”. Porque convenhamos: ficar velha, pobre, excluída e ainda por cima ser tratada como palhaça, é um insulto enorme para qualquer cristão. Então, que Deus nos ajude. Porque o resto está pouco se lixando

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