maio 23, 2012

  Precisamos falar sobre o Kevin

 

 

Desconcertante, é o mínimo que se pode dizer do filme “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, adaptação do cineasta Lynne Ramsay para o best-seller homônimo de Lionel Shriver. A autora, que esteve recentemente no Brasil por ocasião da FLIP, escreveu alguns best-sellers como o cultuado “A vida pós-aniversário”.  O filme conta (de forma não linear misturando cenas do passado e presente) o difícil relacionamento de uma mãe com seu primogênito, levantando questões polêmicas como "é possível não amar um filho?"; "Será que o caráter de uma pessoa é estabelecido desde o nascimento ou é modificado ao longo da vida?".

“Vamos falar sobre Kevin” também discute (mesmo com pouquíssimos diálogos) casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu. Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional “onde foi que eu errei?” a narradora desnuda, assombrada, outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos? "Será que o caráter de uma pessoa é estabelecido desde o nascimento ou é modificado ao longo da vida?".

O romance original, que consiste em cartas de Eva (interpretada magistralmente por Tilda Swinton) para o marido após a tragédia, e o roteiro do filme, argumentam que nem toda maternidade é feliz. Eva, aparentemente, nunca quis ser mãe e isso se torna um fardo para ela. Mas teria Kevin nascido mau ou a criação de Eva  e o excesso de permissividade do pai o teriam transformado num menino perverso? Não é um debate simples. E nem é a intenção diretor. Nesse sentido, Precisamos Falar Sobre o Kevin beira um estudo de caso, mostrando o que aconteceu com esse estranho garoto que, em certos momentos, chega a dar arrepios no telespectador desavisado.

O filme consegue manter o suspense até 15 ou 20 minutos do final, que surpreende e emociona. Talvez pelo sentimento de culpa, ou até pelo amor que existia dentro dela sem se fazer notar, a mãe não abandona o filho nem nas piores situações. Talvez o amor de mãe seja mesmo algo maior do que todas as tragédias.  O filme (que está em cartaz somente terças e quintas) não é fácil de ser visto. Em certos momentos ele incomoda tanto que dá vontade de gritar ou sair correndo da sala. Mas vale a pena.  Precisamos mesmo falar sobre Kevin. Acho que vou assistir mais uma vez.

Curiosidade: Dizem que o filme não foi injustamente indicado ao Oscar – em nenhuma categoria – porque os americanos ainda não conseguem lidar com questões tão complexas nem com os fantasmas que rondam pais e escolas dos EUA.

A seguir a excelente crítica detalhada feita pelo blogueiro Ivanildo Pereira, amazonense e estudante de jornalismo para o “O BLOG QUE NÃO ESTAVA LÁ

MÃE E FILHO MANCHADOS DE VERMELHO

Desde cedo, havia algo errado com o pequeno Kevin. Ele sempre pareceu odiar a própria mãe. Mas, verdade seja dita, Eva, a mãe de Kevin, nunca se mostrou muito entusiasmada em tê-lo ou interessada em demonstrar amor por ele. Na adolescência do garoto, o abismo entre ele e sua mãe aumenta ainda mais. Até que, aos 16 anos, Kevin provoca uma verdadeira tragédia. Vividos com intensidade e entrega por Tilda Swinton e Ezra Miller respectivamente, Eva e Kevin são os protagonistas do assustador “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, drama/suspense da diretora Lynne Ramsay. O filme, além de tratar de um tema bem atual e controverso (violência e psicopatia na infância e na juventude), também é construído em cima da seguinte indagação: até que ponto uma mãe pode ser responsabilizada pelos atos de um filho? 

Quando a conhecemos, Eva (Swinton) aparece no festival espanhol La Tomatina, onde centenas de pessoas se espremem numa rua, esmagando tomates uns nos outros, e por isso ela está coberta de vermelho. Esse é um momento do passado dela, e logo a cronologia embaralhada nos fará alternar entre passado e presente. Outrora uma bem sucedida escritora de roteiros de viagem, no presente Eva procura emprego – qualquer um – e é hostilizada por quase todas as pessoas que encontra. Nas cenas do passado, acompanhamos sua vida junto ao marido, Franklin (John C. Reilly, eficiente como sempre). O filho do casal, Kevin (vivido na infância por Jasper Newell), desde cedo manifesta tendências hostis em relação à mãe (e, algumas vezes, a mãe responde a essas tendências com mais hostilidade). Quando Kevin chega à adolescência, Eva tenta uma reaproximação, mas é recebida com frieza. Um incidente aqui, outro ali, deveriam ter chamado a atenção do casal, mas são ignorados pelo marido. O palco para a tragédia é montado, e essa alternância entre as linhas narrativas deixa o espectador num estado de constante suspense. De fato, passamos a projeção inteira querendo descobrir o motivo pelo qual Eva é tão solitária, desprezada e hostilizada, e quando a explicação vem, ela está à altura da ansiedade despertada ao longo de toda a narrativa. 

Kevin na adolescência (Ezra Miller) 

Mas não é apenas com a cronologia fragmentada que a diretora cria esse estado de perturbação. Há imagens desfocadas, a fotografia é granulada e fria, alguns enquadramentos são bizarros e na trilha sonora, canções suaves (algumas até em estilo country) contrastam com a seriedade das situações, causando um efeito de estranheza. Em outros momentos, as canções dão ao filme um ar de comédia de humor negro. E, de fato, há momentos estranhamente engraçados em “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, principalmente na primeira metade, quando vemos Eva tentando se entender com o filho pequeno. Kevin, quando menino, faz o garoto Damien de “A Profecia” (The Omen, 1976) parecer apenas um moleque levado…

Mãe e filho se confundem

Outro importante aspecto a destacar no filme é o uso simbólico da cor vermelha. Presente ao longo de toda a projeção, ela aparece especificamente para nos remeter à ideia de sangue. Um personagem, no entanto, usa essa cor nos figurinos, repetidas vezes na história, o próprio Kevin (num momento, a cor vermelha é salpicada numa camisa branca. imitando respingos). Ele é o personagem causador do derramamento de sangue, e o vermelho acaba sujando a blusa clara de sua mãe num momento próximo ao final. Nas cenas do presente, pós-tragédia, Eva usa vermelho algumas vezes, expondo a sua condição “manchada”, eternamente suja e marcada pelos atos do filho. Uma bela forma visual de estabelecer a conexão entre os dois personagens.

Acuada no supermercado (e pelas latas vermelhas de sopa)

E os atores escolhidos para dar vida a esses personagens têm desempenhos fantásticos. A competência de Tilda Swinton já é conhecida, mas aqui ela tem provavelmente a melhor interpretação de sua carreira. Sua Eva é uma mulher complexa, assustada, detestável em alguns momentos e tristemente indefesa em outros. Sua “propensão” para a maternidade é demonstrada de forma brilhante através do uso do som: numa cena, ela prefere o som de uma construção na rua a ouvir o choro incessante do seu filho (e a expressão de alívio da atriz é sensacional). Apesar da sua presença incomum e da personagem difícil, Tilda não afasta completamente o público, que permanece investido nela. E ambos os “Kevins” são verdadeiras revelações. O Kevin infantil, o pequeno Jasper Newell, é o pesadelo de qualquer pai. E o Kevin adolescente, Ezra Miller, tem um sorriso diabólico e uma frieza incrível.

Família feliz?

Alguns questionamentos ficam com o espectador ao final de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”: afinal, de onde vem o mal? Ele é aprendido? Ou pode ser herdado, como alguma coisa genética que os pais transmitem aos filhos, não diferente de uma propensão à calvície ou miopia? No fim das contas, há distinção? A última cena é ambígua, e não responde a essas perguntas, encerrando a história numa nota perturbadora, de acordo com tudo que foi visto antes. Mas uma coisa é certa: parece haver mais semelhanças que diferenças entre Eva e Kevin. Os filhos são do jeito que os pais os fazem.  “Precisamos Falar Sobre o Kevin” é quase um filme de terror. Na verdade, é mais assustador que a maioria deles.

Disponível em DVD e Blu-ray no Brasil pela Paris Filmes.

 

 

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