Maio 23, 2010

Assistí no sábado dois filmes excelentes que estão em cartaz nos cinemas de Brasília: “O Preço da Traição” e “O Escritor Fantasma”. Saí de uma sessão e fui para outra em menos de meia hora. E devo dizer que raríssimas vezes dei tamanha sorte de ver, seguidamente, dois filmes tão interessantes. É bom dizer que a crítica não elogiou nada o primeiro. Mas não se deixe intimidar pelos críticos e vá assitir "Chloe".capa-o-preco-da-traicao-6797

O título em português (O preço da traição), pra variar, é uma bobagem sem tamanho. "Chloe”, títitulo original é também o nome da personagem que dá a tônica do filme. Ela é uma garota de programa, que já nos primeiros minutos descreve-se como uma menina cujo caráter é moldado ao que pedem os seus clientes. Pode “vestir” o papel de mãe, filha, executiva, etc. Depende do gosto de quem contrata seus “serviços”.

Catherine (interpretação memorável de Julianne Moore) é uma médica ginecologista temerosa pelo casamento e pelo filho, cujas rédeas ela perdeu há algum tempo. Desconfiada de traição, resolve contratar Chloe (Amanda Seyfried) para “testar” o marido, David (Liam Neeson). As coisas começam a perder o controle quando Chloe vai além do que os serviços que lhe são solicitados.
Freud adoraria explicar as atitudes de cada personagem desta obra do diretor Atom Egoyan. Eles são cheios de nuances e desvios de personalidade que seriam um prato cheio para o pai da psicanálise.
Dá vontade de fazer uma pequena descrição da personalidade dos personagens, mas não quero tirar a excitação que se tem a cada novo fato da história. Tal excitação é causada não só pelas envolventes – e fortes – cenas de sedução como pela complexidade do roteiro e a perplexidade contínua causada no espectador.
O filme constrói uma rede de sedução muito interessante, na qual cada ato pode gerar consequências inimagináveis. Por mais espantosas que possam parecer algumas atitudes (principalmente para os moralistas de plantão), é perceptível a intenção em mostrar que instintos e fantasias existem em qualquer ser humano, mesmo que mais aguçados em uns e mais reprimidos em outros.
As cenas pra lá de calientes e os close-ups das duas personagens são de tirar o fôlego!
Chloe é um filme para ser visto mais de uma vez e contém assunto para discussões infindáveis sobre o caráter – ou a falta dele – das pessoas. Seu maior mérito é não ser limitado. As atitudes de cada um não seguem uma regra, cada ação pode gerar diferentes reações e ninguém é bom ou mal completamente. Os caminhos estão abertos e a situação pode mudar a qualquer momento.
O final talvez soe um tanto moralista ou conservador à primeira vista. Mas se formos um pouco mais fundo, veremos que a solução final não é exatamente o fim da trama. Talvez seja apenas para nos deixar pensando nas várias opções e soluções. Ou talvez nem houvesse solução. Vai depender da cabeça de cada espectador.
 
 
 
O segundo filme foi:
O ESCRITOR FANTASMA
(The Ghost Writer, 2010)
 
 
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Um ghostwriter (pessoa que escreve textos e livros que são assinados por outros), vivido por Ewan McGregor, é contratado para completar as memórias de Adam Lang (Pierce Brosnan), primeiro-ministro da Inglaterra. O personagem acaba descobrindo segredos sobre uma conspiração mundial que colocam a própria vida em perigo.
O filme foi baseado em um livro homônimo de Robert Harris e deu o prêmio de melhor direção para Roman Polanski no Festival de Berlim em 2010. Também foi vencedor nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor pelo New York Film Critics Circle, pela Los Angeles Film Critics Association e pela The Boston Society of Film Critics.
 
O Escritor Fantasma é um daqueles poucos filmes para os quais podemos dar nota dez. Perfeito, do início ao fim. São raros os cineastas que têm uma pegada tão característica como o genial Roman Polanski que nesse filme resgata o suspense psicológico da obra prima O Bebê de Rosemary (1968) e o clima noir de Chinatown (1974), os unindo em um único filme. A sutileza de sugerir, em vez de mostrar, faz a história crescer em tensão. A cada fato que induz a uma pista, a cada nova descoberta, o espectador é brindado com o prazer do verdadeiro cinema.
Numa era de espetáculos visuais, 3D e afins, Polanski prefere o implícito, a interiorização. O Escritor Fantasma é um suspense político recheado de traições e mistério com final surpreendente.
 

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