Janeiro 30, 2010

 Texto de  Wilson Fadul Filho
 
Susan George, intelectual e professora da École dês Haultes Études en Sciences Sociales de Paris, publicou em 1999 na Europa e em 2002 no Brasil sua obra magistral “O Relatório Lugano” (Ed. Boitempo Editorial, 2002, tradução de Afonso Teixeira Filho), no qual ela expõe o grande projeto para que o capitalismo continuasse crescendo durante o século XXI, sem que a pobreza e a miséria incomodassem os países ricos, que, naturalmente, precisariam de um mundo aparente não tão cinza, porém funcional.  Mas, segundo o “Relatório”, esse sistema não poderia sobreviver mantendo uma minoria nos países centrais consumindo cada vez mais e com o aumento considerável da população mundial para seis ou oito bilhões de habitantes. É preciso tornar todo esse povo supérfluo para seguir consumindo os produtos cada vez mais supérfluos.
Era extremante necessário, argumenta Susan, a eliminação pouco a pouco e sem culpa desses pobres e miseráveis habitantes do planeta, na sua grande maioria africanos, árabes, latinos, asiáticos e outros. O método não poderia ser escancarado, como em Auschwitz, e deveria acontecer naturalmente como se a vítimas, elas próprias, se matassem umas às outras, sem qualquer responsabilidade para o núcleo central de poder, ou seja, os brancos construtores da “Civilização Ocidental”. Para tal empreitada seriam utilizados os mecanismos clássicos do esvaziamento economico, com o esquecimento da existência desses países, como também teriam papel importante as grandes agências reguladoras do capital, FMI e Banco Mundial, com suas políticas economicas recessivas sendo adotadas pelo mundo.
Não poderia haver, para ilustrar esse livro que completa onze anos, exemplo melhor do que o Haiti nos dias de hoje, embora a realidade do Haiti tenha raízes históricas há 200 anos. O país foi submetido ao esquecimento e a interdições de todas as formas, saques, esbulhos e pagamentos de indenizações astronomicas aos países ricos. Isso tudo porque o Haiti ousou, no início do século XIX, a declarar sua independência e instalar uma república negra nas Américas. Em uma frase: o Haiti é produto do ódio racista da civilização branca. A História do Haiti está muito bem contada no artigo “Pecados do Haiti” do escritor Eduardo Galeano, publicado no site www.cartamaior .com.br e reproduzido por este blog.
Chega a ser hilária, se não fosse tão trágica a situação, a proposta dos ricos, reunidos em Davos, de debaterem a tragédia no Haiti e, pior ainda, com pretensões de ajudar a reconstrução e realizar novos negócios com esse país americano. A história do Haiti está repleta desse tipo de iniciativa. O mais interessante e atual no livro de Susan George é que ela imagina, aliás, a única peça de ficção do “Relatório”, que o genocídio engendrado como solução para o capitalismo sobreviver mais um século brotou de uma reunião na cidade de Lugano, na Suiça, tal como Davos. Só que na obra da escritora francesa não eram os ricos que se reuniam, mas um grupo com os melhores cientistas do mundo, financiados pel os países centrais do capitalismo. Essa é uma rápida retrospectiva da história do humanismo dos países ricos.

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