Março 25, 2010

Liberdade de Imprensa e o capitalismo

Por wilson Fadul Filho – jornalista

Dia 18 deste mês, a TV Globo, através do Jornal Nacional, levou ao ar uma reportagem sobre a dependência dos sul-coreanos sobre a internet e tratando o caso como se fosse uma doença onde os internautas seriam uma espécie de viciados em drogas. Sita, como exemplo, um casal que deixou o filho morrer em casa por falta de alimentação, porque participavam de um jogo no computador.  Entre as medidas adotadas pelo governo sul-coreano está a de limitar-se o uso da internet, através de um dispositivo que desliga o link do internauta, sem qualquer comentário da TV Globo. Se esse mesmo caso tivesse acontecido no Irã ou na Coréia do Norte países considerados do “eixo do mal” e sob forte ataque da mídia internacional, com certeza a reportagem não teria o menor constrangimento em substituir o limitar o acesso à internet por censurar a internet. O recente caso entre a China e Google é o melhor exemplo.

Essa lógica de se utilizar da informação apenas pelo lado que interessa é o que se chama de “Liberdade de Imprensa” no mundo ocidental, particularmente aqui no Brasil, onde a própria TV Globo já deve ter esquecido o episódio Carlos Monforte/Rubens Ricupero, no qual os dois, repórter e ministro, são flagrados dizendo que o que é bom para a gente vai pro ar e o que não é bom não publicamos. O que é isso senão censura velada.

O que nos interessa aqui é explicitar essa lógica perversa executada pela mídia no país e mostrar como essa pseudo idéia de liberdade de imprensa é a responsável pelo Rio de Janeiro estar em vias de perder grande parte dos royalts da bacia do pré-sal. Como isso é possível? Basta dar um passeio rápido nos últimos 35 anos de história do país. Que o povo não se lembre tudo bem, mas a mídia não pode esquecer porque ela mesma estava sob censura, conveniente ou não, dos militares na época. Refiro-me aqui ao episódio conhecido como o “Pacote de Abril de 77”.

Faz tempo que a mídia vem tratando de lixo autoritário parte da legislação herdada do regime militar. Assim foi recentemente com a Lei de Imprensa. O mesmo enfrentamento e com a mesma força a mídia não dispensa a todo o complexo de legislação política, eleitoral e partidária, ainda em vigor, oriunda daquele pacote imposto ao país com o fechamento do Congresso Nacional e a suspensão da Suprema Corte. Um ato totalmente arbitrário cujos efeitos ainda estão em pleno funcionamento em prejuízo do Pacto Federativo.

A Ditadura editou o pacote para apenas ampliar as bancadas de deputados federais nas Regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, por sinal as mais conservadoras na época, e garantir a maioria do Colégio Eleitoral na eleição indireta para presidente da república do general Figueiredo. A Arena, partido da Ditadura, tinha sofrido grande derrota para o MDB nos anos anteriores nos estados e grandes cidades do Sudeste e do Sul. Com o passar dos anos essa esquizofrenia foi aumentando e, hoje, Norte, Nordeste e Cento Oeste têm dois terços do Congresso Nacional, mas tendo apenas um terço do eleitorado. Com esse quadro é muito fácil a Câmara aprovar uma lei contra um, dois ou três Estados da Federação. Não estou colocando em dúvida a dívida que o Brasil tem com os seus bolsões de miséria, mas gostaria muito que a mídia explicasse porque quinze mil eleitores fazem um deputado federal no Acre enquanto que em São Paulo são precisos trezentos mil eleitores para ter um representante no Congresso. Ou muda-se o cociente eleitoral ou serei obrigado a achar que os acreanos são melhores do que os paulistanos, ou os cariocas. No Rio são necessários cento e quarenta mil votos para eleger um deputado.

É a pura e simples omissão da mídia com relação à necessária reforma política e eleitoral que estimula os deputados a votarem uma lei inconstitucional, criando um conflito que vai bater nas portas do Supremo Tribunal Federal. Ao contrário, a nossa imprensa parece querer estimular o conflito e com isso atingir o presidente Lula que sempre tem sido vitorioso nos embates com as tevês e os jornalões do país.

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  1. Paulista com orgulho disse:

    "quinze mil eleitores fazem um deputado federal no Acre enquanto que em São Paulo são precisos trezentos mil eleitores para ter um representante no Congresso."
    Isso tem nome: RACISMO.

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