junho 16, 2010

 

Deputado em greve de fome: "Vou morrer em plenário"

Congresso em Foco

 

 

Elton Bonfim/Câmara
Em greve de fome contra a aliança do PT maranhense com Roseana Sarney, Domingos Dutra avisa: vai morrer no plenário

Fábio Góis

Em greve de fome desde sexta-feira (11), o deputado Domingos Dutra (PT-MA) subiu há pouco a tribuna e, em lágrimas e portando algemas, fez um inflamado discurso contra a cúpula de seu partido – que, em decisão monocrática, retirou o apoio ao deputado Flávio Dino (PCdoB-MA) na disputa ao governo do Maranhão em favor da candidata à reeleição, Roseana Sarney (PMDB). Dizendo ter perdido dois quilos e nitidamente trêmulo, Domingos disse que só sairá do plenário morto.

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“Nós vamos ficar aqui, o Manoel da Conceição vai ficar aqui. Vai morrer!Eu vou morrer aqui! Para que se respeite a legalidade partidária, a democracia!”, bradou o parlamentar maranhense, diante de cerca de 50 deputados que, em silêncio pleno, demonstravam perplexidade diante da contundência das palavras do petista. O Manuel a quem ele se referia é um dos fundadores do PT do Maranhão, Manoel da Conceição, que também está em greve de fome. As algemas uniriam os dois petistas em caso de ameaça de remoção de ambos do plenário.

O deputado proferiu duras palavras contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que, apesar de senador pelo Amapá, mantém um clã político encabeçado pela filha Roseana. “Entregaram o PT de mãos beijadas para Roseana”, reclamou Domingos, que chegou a chamar Sarney de “praga”, “bandido” e “filho de uma égua”, recebendo aplausos do plenário.

Os ataques a Sarney foram uma peça à parte no pronunciamento. Depois de ler trechos de resolução do diretório nacional que avalizou a coligação PT-PCdoB, Domingos disse que “esta praga do Sarney” foi o grande responsável pela intervenção no Maranhão.

“O resultado apertado de 87 votos a 85 a favor da aliança com Flávio Dino foi anunciado e homologado pelo secretário nacional do PT, Paulo Frateschi, que em seu discurso descartou qualquer possibilidade de intervenção da executiva nacional. Mas depois, sem processo, sem rito, sem quorum, sem direito de defesa, resolveram anular o encontro [que definiu o apoio a Dino]”, discursou o deputado, dirigindo-se ao ex-presidente do partido José Genoino, que minutos antes foi à tribuna defender a cúpula petista.

“Neste regulamento aqui, Genoino, está dito que quem escolhe os candidatos são os estados. E o que fizeram? Anularam a decisão do estado e, pior do que isso, entregaram o PT de mãos beijadas para Roseana. Genoino, você conhece sua história! Por que está sendo solidário a um oligarca perverso, criminoso, corrupto?!”, exclamou.

Sono

Mais cedo, Domingos assistiu à vitória do Brasil sobre a Coréia do Norte na Copa do Mundo ao lado de Manoel da Conceição. Cobertos por bandeiras do Brasil e do PT, ambos chegaram a dormir diante do sonolento primeiro tempo sem gols apresentado pela equipe canarinho. Ao lado do plenário, na área de cafezinho e refeições, os poucos deputados que compareceram à Câmara fizeram um bolão e viram juntos a estreia da seleção.

Devidamente aceso, embora enfraquecido pela greve de fome, Domingos era a imagem da ira. “Por que não nos expulsaram? Era mais justo nos humilhar. Procurei o Eduardo Dutra [presidente nacional do PT], ele não deu resposta. Mandamos pedido de audiência com o [ministro das Relações Institucionais, Alexande] Padilha, e ele nos deu o silêncio como resposta”, protestou Domingos. “O que tentaram foi nos destruir, nunca conversaram com a gente.”

Depois de exibir as algemas que impediriam a sua expulsão do plenário, Domingos disse que aquele não era uma briga com o Parlamento, mas com o “assassino do Maranhão”. O deputado reclamou ainda da falta de estrutura que tem à disposição na Casa para dar prosseguimento à greve de fome. “Não tem nem chuveiro. É muito triste, e eu tirei foto, de ver o Manoel nu, andando como uma criança, só com um toco de perna. Genoino, pelo amor de Deus, é para esse oligarca que tirou a perna do Manoel que você entregam o PT?!”, questionou, depois de ter chamado a executiva nacional petista de “aquela merda”. Tratamento estendido ao PMDB sob o eufemismo “antidemocrático”.

“Lá no Pará, quer destruir a nossa companheira Ana Júlia [Carepa, governadora do Pará]. Tira o PT de Minas e, no Rio Grande do Sul, ao invés de apoiar o Tarso [Genro, ex-ministro da Justiça e candidato ao governo], lá [em Minas] tira o prefeito da capital [José Pimentel, trocado pelo peemedebista Hélio Costa] para derrotar o Tarso. Pelo amor de Deus! Onde está a reciprocidade? É tudo vem a nós para eles, e nós nos lascamos!”, fustigou, em bom nordestinês.

As menções a Sarney continuaram com Domingos a lembrar as derrotas que Sarney impingiu aos senadores Tião Viana (PT-AC) e Ideli Salvatti (PT-SC), respectivamente na disputa pela presidência do Senado e da Comissão de Infra-Estrutura, hoje ocupada por Fernando Collor (PTB-AL). O deputado citou também o apoio que Lula deu ao ex-presidente da República no ano passado, durante a defesa dos 11 processos abertos (e devidamente arquivados depois da atuação da tropa de choque do PMDB) contra o peemedebista no Conselho de Ética (relembre aqui também).

“Ele [Sarney] agora quer a nossa alma. Pois esse filho de uma mãe não vai ter a nossa alma. Pode ter o nosso corpo, mas a alma, não!”, disse Domingos, sob aplausos.

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