outubro 10, 2010

Acordei com a campanhia estridente logo cedo. È minha amiga Zika, advinhei. Geralmente ela faz isto duas, no máximo três vezes, por semana. Mas hoje, ao invés de ligar antes, como é de hábito, ela veio sem avisar. “Vamos andar um pouco, amiga, não tô nada bem”, me diz com olhos injetados de quem não dormiu muito bem. Ainda meio tonta, troco de roupa e a acompanho em mais uma sessão de mea culpa. Bom, antes de falar aqui das agruras de Zika – devidamente autorizada por ela – deixe-me explicar um pouco sobre esta boa amiga de muitos e muitos carnavais.

O nome dela, claro, não é este. Zika foi um apelido que dei por julgá-lo apropriado para narrar, a partir de agora, suas desventuras. É Zika de ziquezeira, de neura ou paranóia, aquela coisa que incomoda tanto e que nem sempre se encontra solução.

Pois bem, minha amiga é uma mulher de meia idade, quase na faixa dos sessenta anos, divorciada e com uma filha adulta que ainda mora com ela. Foi linda na juventude – como todos nós – mas agora se sente acabada por dentro e por fora. Além de não se conformar com a velhice iminente, está totalmente sem rumo na vida e na profissão. Tem dias que ela quer mudar tudo: de lugar, de modos, de estilo, de país. Noutros acha que a única solução para suas vicissitudes é isolar-se num mosteiro que descobriu na Argentina anos atrás.

Mas o que preocupa mesmo a Zika, o que a tem deixado desesperada, é o fato de, finalmente, ter assumido que a bebida alcoólica é seu bem e seu mal. De uns tempos pra cá ela até vem bebendo menos, mas os efeitos parecem ainda maiores. No entanto a bebida, segundo ela, é a única coisa que consegue tirá-la do limbo, da solidão, do vazio que se instalou no peito desde que a conheço.

O problema de Zika é não ter medida. Imagino que ela seja como um adicto, viciado em drogas, que precisa estar sob o efeito da droga para não sucumbir. Pois ela é assim: um drink é pouco, mas vários são avassaladores. Não, ela não costuma dar vexame em público, raramente sai para beber em bares ou festas. Ela bebe em casa, sozinha, quase sempre ouvindo músicas antigas, revendo álbuns de fotografias e ligando desesperadamente para amigos e conhecidos. E estas sessões etílicas, ao contrário do que se imagina, não são nada tristes. Ao contrário: são talvez os únicos momentos em que ela fica alegre, solta, divertida. Eu mesmo me divirto muito com ela, mesmo sabendo que horas depois vou ter que levá-la para cama antes que ela peça mais uma dose.

No dia seguinte, no entanto, as doses a mais têm efeito devastador no emocional de Zika. Primeiro vem a culpa, depois o medo, e finalmente o desespero, principalmente quando não se lembra de nada do que fez. Pois é, ela tem tido mais e mais dos chamados apagões de memória. Bebe e não sabe com quem falou o que falou nem o que fez.

Religiosa ao extremo, ela chora e reza. Pede a Deus todo santo dia que a livre desta rotina destrutiva. Às vezes briga com Ele por não atendê-la. Mas dois dias depois, passada a ressaca, ela está pronta para começar a festa novamente. O problema de Zika não é revelado. É um segredo que ela guarda a sete chaves. Mas desconfio que muitos dos nossos amigos já saibam, só não falam.

Zika sofre de uma doença comum, mas cheia de preconceitos: o alcoolismo. Que vem afetando mais mulheres do que homens, principalmente aquelas que estão na mesma idade que ela e passam pela fase da Síndrome do Ninho Vazio. Hoje, mais uma vez, ela disse que quer ajuda, que não aguenta mais tanta culpa. Ela faz  todo tipo de terapia mas nada resolve.

 Eu ofereço minha amizade e solidariedade. Conheço de perto a doença. Já vi parentes na sarjeta e outros que morreram sem assumir a doença e, por conseguinte sem qualquer tratamento. O álcool é a droga mais aceita e incentivada pela sociedade. Mas ninguém quer arcar com suas conseqüências. A filha ignora o assunto, talvez impotente. O irmão faz piada do problema e a cunhada não quer vê-la por perto. Os demais não sabem, ou não querem saber o que acontece.

Hoje ela me falou de uma possível solução. Disse que vai se tratar numa famosa clínica no interior de São Paulo. A consulta está marcada para a próxima semana. Ela está confiante com a indicação de amigo, que conseguiu sair da mesma situação. O problema diz ela é o que fazer com a sobriedade. Este é seu maior medo. “Ficar sóbria é um pesadelo para quem nunca se sentiu amada”, diz.

Enquanto o dia da consulta não chega Zika me disse que vai se despedir em grande estilo. Está providenciandor uma (desconfio que  serão duas) garrafas de champanhe francês, colocar seus CDs favoritos, uma roupa bem bonita e rir bastante. A guisa de estímulo, disse que posso acompanhar e escrever sobre o processo de mais uma tentativa de recuperação. Vou ficar aqui torcendo muito por ela. E escrevendo.

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  1. Guilherme de Almeida disse:

    Leve ela onde a juventude de HOJE pulsa… Digo de esportes. Ela vai perceber o real estresse que ela precisa pra se encontrar livre desse troço que já destruiu meu pai (faleceu em 2003).
     
    É complicado, mas "acontece" ou então FAÇA acontecer.

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