dezembro 3, 2011

 

 

Depois de assistir "Reflexões de um liquidificador" (acho até que o nome deveria ser "Segredos de um liquidiicador . como na música do Cazuza, mas tudo bem) uma coisa ficou clara: brasileiro não conhece o cinema os brasileiros fazem. "Reflexões…" é tudo de bom. Assisti no telecine Max, mas deveria estar no Cult. Melhor ainda, deveria estar nas telas de boa parte das salas de cinema. Do Brasil e do mundo. "Reflexões…" é filme pra fazer bonito em qualquer lugar. Deveria ter sido indicado ao Oscar. Garanto que faria mais sucesso que o óbvio (ainda que muito bom) "Tropa de Elite 2" (Se eles não assistiramao primeiro pode ficar meio confuso, né?. Bom mas voltando ao nosso "liquidificado", na voz de ninguém menos que o genial Selton Melo, o filme  é realmente, atípico, muito diferente das coisas que os telespectadores brasileiros estão acostumados a assistir. "Reflexões de um Liquidificador" tem o tom do cinema europeu – notadamente das comédias francesas – é irreverente e absurdamente surpreendente em tudo que se possa imaginar. Um elenco pequeno, mas que não deixa nada a desejar. Ana Lúcia Torre dá show no papel da dona de casa, Elvira que, de um dia para outro começa a ouvir o seu eletrodoméstico e passa a conversar com ele.

Em flash back, o telespectador descobre que o liquidificador, depois de ter uma de suas peças trocadas, ganhou vida e desencadeia a particularidade de ver, ouvir, pensar e refletir sobre o mundo ao seu redor. Passa os dias fazendo vitaminas e sucos dos mais variados tipos e para um grande número de fregueses da lanchonete que seus donos possuem – Dona Elvira e Seu Onofre. Depois do fechamento da lanchonete ele passa a ser um utensílio doméstico e se sentindo cada vez mais solitário resolve se apresentar a sua dona, que por sua vez, leva uma vida de dona de casa num bairro periférico, só tendo contato com seu esposo, que após o fechamento da lanchonete, conseguiu um emprego de vigia noturno, o Carteiro, sua vizinha muito bem interpretada por Fabíula Nascimento e o seu liquidificador. A intensificação da relação entre os dois se dá em torno do desaparecimento de Onofre, o esposo de Elvira, que agora fica em casa o dia todo sozinha com o liquidificar, tendo apenas as visitas da vizinha Milena, do Carteiro e do Investigador que fora designado para cuidar do caso do desaparecimento.  Na medida em que a trama vai se desenrolando, não se sente falta de outros personagens, pois os diálogos entre o liquidificador e sua dona são mais que suficientes para manter o telespectador saciado diante da tela e ao ser desvendado o desaparecimento de seu Onofre é revelada a ligação macabra entre Elvira e seu cúmplice eletrodoméstico em uma das cenas mais excitantes, sádica, perversas e excêntricas que o cinema brasileiro certamente até hoje já pôde produzir, a coisa é tão bem feita, mas tão bem feita que o que poderia ser chocante, escandaloso e hediondo, torna-se totalmente agradável, leve, necessária, reveladora e inspiradora. 

Reflexões de um Liquidificar é estéticamente perfeito. Além disto tem humor negro, diálogos contundentes filosóficos de um motor e uma atmosfera cômica sombria sobre toda a situação inusitada, mas em momento alguma faz parecer  "absurda ou exorbitante". Como diz o Liquidificar, "ser máquina, ser motor, aliás, não ser gente já é uma forma de ser feliz.", e isso é passado delicadamente aos telespectadores, afinal "moer é pensar, pensar é moer" e certamente esse filme garantirá a certeza de moer muita coisa além de altas gargalhadas. O diretor, André Klotzel, é simplesmente fantástico.

Título original: (Reflexões de um Liquidificador)

Lançamento: 2010 (Brasil)

Direção: André Klotzel

Atores: Ana Lúcia Torre, Selton Mello, Germano Haiut, Fabíula Nascimento.

Duração: 80 min

Gênero: Drama

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