Janeiro 14, 2011

Artigo publicado hoje no Correio do Estado

Por Theresa Hilcar*

Chuva, chuva, chuva, todo ano é a mesma coisa; enchentes, perdas, mortes, prejuízos. A pergunta é: por que os governos não fazem obras de prevenção e drenagem? Por que a população não se previne? E, finalmente, por que a natureza vem nos castigando tanto e com tamanha força? Para responder essas perguntas vou recorrer à frase do jornalista Alexandre Garcia que diz: “Porque a natureza cobra pedágio”.

Ou alguém ainda tem dúvidas de que a humanidade não vai ficar impune para sempre, depois de devastar o próprio planeta, e tratá-lo com total descaso? Pior é que muita gente pensa que toda essa história de ecologia é a mais pura balela, que a terra está imune a toda sorte de maus tratos. Pois bem, para os que ainda acreditam – ingênua ou arrogantemente nesta premissa aí vai a má notícia: ela já está revidando.

Os governos são, supostamente, compostos de pessoas inteligentes, gabaritadas, bem informadas e tecnicamente preparadas, certo? Então por que eles não conseguem fazer ao menos o dever de casa, aquelas obras necessárias, ao invés de gastar o dobro quando as tragédias acontecem? O que sempre ouvimos dos analistas é que falta a tradicional vontade política. Que obras desta natureza não aparecem e, por conseguinte não dão votos. É duro ter que ouvir isto sempre. É realmente desalentador ouvir a mesma explicação, e pior: se sentir impotente diante de tamanho descalabro, pra dizer o mínimo.

O segundo questionamento tem a ver com a nossa culpa, nossa máxima culpa.  Somos responsáveis sim, pelo que acontece ao nosso redor, principalmente em tempos de águas intermitentes. Nossa parcela de culpa não é tão grande quanto à do Estado, mas somadas fazem um grande estrago.

Isto sem esquecer que os que pagam pela indolência dos governos e pela nossa irresponsabilidade são sempre os mais fracos. Sim, porque aqui onde moro (e provavelmente onde você, leitor, mora) não acontece nada. Enquanto digito este texto posso ver a chuva da minha janela certa de que ela, além de lúdica é um refresco para os dias tórridos de verão. Estou totalmente protegida – ao menos por enquanto; não há enchentes na minha porta, nem desabamentos ao redor.

São os mais pobres, aqueles que moram nas periferias das grandes cidades (e por falta de opção são obrigados a viver em lugares de risco) que pagam a dívida que a sociedade e os governos debitam nas suas contas tão frágeis. Não entendeu ainda qual é a sua dívida? É aquela lata de refrigerante e cerveja que os mal educados jogam na rua (e tem aquela cena do sujeito que toma cerveja dirigindo e depois ainda joga fora a garrafinha ou lata na rua, só por Deus!), a garrafa pet que rola nos canteiros, os milhões de sacos plásticos que entopem bueiros. É simplesmente o lixo, meu caro, aquele que você – às vezes nem eu – tem o cuidado de reciclar e que provoca o caos nas cidades.

Pra muita gente reciclagem é palavrão. Sei que não é muito fácil separar o lixo doméstico (saber se mistura papel com restos orgânicos, o que fazer com as pilhas, etc.), mas quando tomamos consciência do processo a gente aprende. No princípio é estranho, mas depois, acredite, a coisa rola com mais facilidade. Até criança de escola sabe da importância de colocar o lixo no lugar certo.

E não adianta reclamar que o serviço público não pega o lixo regularmente, que não há coleta seletiva eficiente. Vamos fazer a nossa parte (quem sabe eles não ficam com vergonha e fazem o que tem de ser feito?), e não deixar a sujeira para os outros. E por favor, não jogue lixo na rua ou na calçada. Não seja mal educado. Respeite os espaços públicos. Seja educado, gentil, solidário. Campo Grande, felizmente, não sofre as tragédias como as que estão acontecendo em São Paulo, Rio e Minas. Mas temos outro inimigo à nossa espreita, pronto para pousar nas latinhas, garrafas e águas esquecidas: o mosquito da dengue. Que também mata.

*Jornalista, escritora, membro da Academia Sul Matogrossense de Letras

 

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