Janeiro 27, 2012

Eu não atravesso na faixa. Sei que na maioria dos lugares o pedestre é incentivado a faze-lo para sua própria proteção. Em muitos países isto é lei. Mas cumprir esta determinação em Campo Grande é correr o risco de ser atropelado – e morto.

Andar nas ruas da cidade é uma aventura, pra não dizer uma epopéia. Em Campo Grande o pedestre não tem vez, voz, nem lugar. Ele é um pária. Uma exceção. Talvez um incômodo. O personagem das ruas é o automóvel. É ele quem comanda, dita as normas, desfila sua onipotência impune, barulhento, nervoso, impaciente. O automóvel é a estrela das ruas e avenidas. Ele é o dono do pedaço. O pedestre é apenas um mais um item na paisagem.

Por várias razões há anos abdiquei do carro. Medo de dirigir, economia, sustentabilidade, saúde; mas, sobretudo por acreditar que, como todo cidadão, tenho direito ao transporte público digno. E caminhar é minha profissão de fé. Andar pelas ruas é interagir, sentir o coração da cidade, partilhar espaços, exercitar o corpo e a humildade deveria ser um prazer não uma luta.

Por isto não entendo o motivo de cercearem esta liberdade. Não entendo porque não existem sinais de trânsito específicos para os pedestres. Sim, eles não existem. O que fazemos todos os dias é escapar deles. Atravessamos as ruas no intervalo entre os automóveis. Por isto a faixa se torna inviável. Porque nunca sabemos quando eles vão virar a esquina, quase sempre em alta velocidade. Andamos com medo.

Há esquinas em que fico atônita em meio há quatro vias de acesso – dos automóveis, claro! O raciocínio nessas horas tem que ser lógico, preciso e calmo. Um deslize pode ser fatal. Por isto mesmo caminho sempre de tênis, para não correr o risco de escorregar no asfalto. Quando tenho um compromisso mais formal, levo um calçado na bolsa e o tênis nos pés. Os mais idosos sofrem em dobro. Eles não são prioridade no trânsito. Nem eu.

Há algum tempo entreguei ao prefeito projeto sobre “Gentileza na cidade”.  Na minha modesta opinião o que falta em Campo Grande é gentileza, principalmente no trânsito. É uma questão cultural que pode e dever ser ensinada, praticada, incentivada. Ser gentil é ser responsável, generoso, normal. É se colocar no lugar do outro. O projeto ficou no silêncio. Mas além dele acredito que os governantes e seus afins poderiam fazer algo mais que não seja alargar avenidas, reformar jardins ou maquiar o asfalto. Sugiro que deixem de lado suas personas públicas, seus gabinetes refrigerados, os automóveis confortáveis, a ilusão do dever cumprido, para caminhar pelas ruas da cidade. Não como autoridades, mas como meros cidadãos, anônimos – de preferência. A experiência de estar do lado de fora, de ser apenas um entre tantos seres humanos poderia, quem sabe? – despertar-lhes a compaixão pelas inúmeras pessoas cujo único desejo é andar com segurança.

A sociedade não pode mais aceitar a indiferença dos que detêm o poder de mudar. A vida, seja ela boa ou má, é a única coisa que temos. Seria muito  bom que todos a respeitassem.

PS. Ontem por pouco não fui atingida por um cidadão que ignorou o sinal na esquina das ruas Candîdo Mariano com a José Antônio. Ele não pode esperar o sinal abrir (as oito da noite) para virar a esquina, estacionar o carro para ir em direção ao bar. Não resisti e disse à ele:"Moço, vc furou o sinal!". Ele respondeu:"Vai cuidar da sua vida, dona". Eu cuido moço. Sou pedestre. E atravessei na faixa!

Deixe o seu comentário