Abril 23, 2018

O som do caminhão do abacaxi me dá urticária. O alto-falante do Pantanal Cap me dá agonia. Passo mal em dia de show na Praça do Rádio, ou de fogos na porta da São José em dia de casamento. Tenho ojeriza das caras que ficam gritando na rua todos os domingos de manhã. Bêbados que vêm para a porta da igreja atrás de uns trocados dos fiéis. Vêm mexer com a culpa de cada um. OU com a bondade, dá tudo mesmo. Eles dormem debaixo dos prédios e acordam cedo para atazanar a vida de quem passa por lá. Até o dono do armazém aqui perto deixou de abrir as portas neste horário. Porque depois que eles recebem a moeda da culpa vão comprar a pinga da alienação. Com Fanta ou Guaraná do Vó Quico. E passam o resto da manhã brigando uns com os outros. Gritando impropérios nas esquinas, falando os piores palavrões. Eu também não desço mais à rua aos domingos. Acabaram meus passeios na praça.
O centro virou o lixão sonoro da cidade. Além das latas e garrafas, da sujeira e dos buracos, também infestam nossos ouvidos com toda sorte de propaganda rasa. O dia todo o microfone fica ligado e o locutor anuncia aos berros: “Olha o abacaxi docinho, direto da Cochinchina”. “Olha o abacaxi que cura tudo”, “Compra aqui minha senhora”. Depois vem o carro do título de capitalização aos berros para atazanar nossa vida e tirar dinheiro dos tolos. Dá vontade de gritar da janela: “Meu ouvido não é pinico!”. O centro virou um feirão a céu aberto. Um mercado de tolos para desavisados. Alô, alô, prefeitura, isto é legal? Quanto de imposto paga o caminhãozinho do abacaxi – que não vem da Cochinchina coisa nenhuma? Ou o centro da cidade virou terra de ninguém?
A Rua Pedro Celestino já foi um lugar digamos, charmoso. Quando me mudei para Campo Grande era uma rua bacana, tranquila até. Alguns dos melhores restaurantes da cidade localizavam-se na vizinhança; o clube mais badalado da cidade nas imediações, a igreja principal (antes Matriz) ainda não atraia os sem-teto, o lendário Libanês (hoje um monte de escombros) bem ao lado, era um local animado, havia moradores ilustres por perto e lá em cima o colégio das irmãs recebia as meninas das tradicionais famílias campo-grandenses. Como eu disse, era uma rua tranquila.
Mas a cidade foi espichando – como todas – e centro vai ficando mais perto, o que era legal para se tornando de mau gosto, a sujeira acumulando, o trânsito ficando mais pesado e o descaso vai se instalando devagar. Quando se percebe o centro virou um lugar difícil ainda que prático. O bom é ruim. E o ruim é bom em certo sentido. Daqui faço tudo a pé. Minha garagem é vazia e só ando de Uber quando o trajeto é longo ou em dia de chuva. Vou ao mercado, ao médico, à farmácia, à conveniência, à igreja, ao banco e vou até onde minhas pernas aguentam. Faço quase tudo caminhando. De tênis, que é pra não correr o risco de ficar presa num buraco ou de cair no meio fio, ou ainda torcer o pé no famigerado (e em boa parte, inútil) piso táctil (ufa!).
Meus filhos dizem que moro no centro velho. Fiquei me perguntando onde será o centro novo? Na Euclides da Cunha? OU nos altos da Avenida Afonso Pena? Acho que para saber é preciso seguir o caminhão do abacaxi ou do Pantanal Cap. O centro velho é o limite. Começo e fim. Onde ninguém reclama. Onde ninguém se importa. O processo de desumanização das grandes cidades começa no centro. Que vai sendo deixado de lado como um objeto velho, sem valor, fora de moda. O centro guarda a história das cidades, mas ninguém se interessar ouvir. Por isto o cara do abacaxi deita e rola.

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