setembro 20, 2010

Belíssima reflexão sobre a morte e o viver

“Só agora, depois de 44 anos, é que compreendi que Deus atendeu ininterruptamente todos os meus pedidos, os atendeu diuturnamente, incessantemente”

Pedi a Deus tantas coisas, a vida toda. Quando criança pedia distancia dos cotonetes com hastes de madeira e rezava pelo bem-estar das cores e objetos redondos. Às vezes, era atendido. Em 1975, ganhei um cachorro e em 1977 ele morreu. Orei compungido pela primeira vez. Tive hamsters, peixes de aquário e coelhos. Meus bichos ficavam doentes e morriam, e então eu desisti deles e concentrei meus pedidos nos objetos redondos que – ao menos na minha frente – não mudavam de forma e não morriam. No dia 5 de abril de 1978, descobri as guimbas manchadas de batom e passei a outra etapa. Sempre pedindo a Deus. Uma vez, pedi pelo painel do Galaxie 500 do meu pai. Aos 12 anos, pedi uma bicicleta de aniversário e ganhei uma viagem a Disney. Na verdade, queria ir pra Copacabana e achei a Disney um porre; de modo que prossegui pedindo uma coisa e ganhando outras. Vejam só. Se eu tivesse ido para Copacabana, não teria prestado atenção nas guimbas manchadas de batom (não aos 12 anos) e certamente não teria ganhado 20 dólares no cassino do S.S Emerald Seas. Naquela época, moleques de classe média bebiam, fumavam e jogavam.

No final das contas, minha avó, que tinha um pacto com Santa Rita de Cássia e fazia uma caponata abençoada por São Benedito, é que atendia meus pedidos mais urgentes e vulgares. Mas eu sempre agradeci a Deus. Poucos anos depois, aos 14/15 anos, comecei a sentir mais tesão em pedir perdão do que em agradecer. Isso ficou muito claro quando rezei dez  Pai-Nossos movido pela culpa de ter gastado o dinheiro que ganhei no Natal com a putinha da Augusta: rezei muito pra Deus curar minha gonorréia. O sacana do dr.Frota receitou uns antibióticos e Ele atendeu meu pedido e, logo em seguida, agradeci ao diabo por manter as saunas da rua Augusta abertas nos feriados e em dias santos também. Pedia coisas grandes e pequenas. Pedia aquilo que todo mundo pede para si e pr’aqueles que ama e pedi mais pra mim do que pros outros, pedi lá em Santos, na Igreja de Nossa Senhora de Monte Serrat, porque achava o nome do lugar bonito e o passeio de bondinho era bem legal.

Em 1967, pediram por mim na Igreja do Calvário onde – consta – fui batizado (não lembro).

Também pedi a Deus de frente para o mar oleoso e melancólico do Boqueirão. E pedi debaixo de cinzeiros e pratos que voavam lá em casa. Mas nessas ocasiões, quando minha mãe descobria alguma falcatrua minha e dos meus irmãos, não adiantava nada. Mesmo assim, eu continuava pedindo por mim e pelos peixes de aquário, e achei que Deus não estava nem aí pros meus Acarás Bandeiras, Lebistes e Cascudos. Em 1972/73, estava convencido de que Deus morava no Parque Antártica e usava costeletas, e eu me divertia um bocado quando meu avô blasfemava contra os céus e desejava que várias bombas atômicas (que à época estavam na moda…) caíssem no Parque São Jorge. Acho que continuava acreditando em Deus mais por causa das blasfêmias do velho do que pelo futebol de Luis Pereira, Dudu e Leivinha. Um dado. À época, os cientistas comprovaram que Deus comandava o meio-de-campo do Palmeiras e era chamado de Ademir da Guia, o divino. Impecável, elegante e acima de qualquer suspeita.

Em 1978, apaixonei-me por uma ruivinha no aeroporto de Congonhas e o meu coreto foi bagunçado de vez, porque associei o sentimento da paixão com o piso do saguão de embarque que parecia um tabuleiro de xadrez. Ainda hoje lembro da garotinha ruiva que partiu e me deixou ali, encalacrado no meio de bispos, torres, aeromoças, reis e rainhas aéreas. Pedi asas a Deus e também pedi pro diabo e não adiantou nada, a ruivinha sumiu e a Transbrasil virou sucata. Depois de ver “O Poderoso Chefão”, resolvi ser um homem de negócios. Outra vez pedi a Deus. Na minha versão, eu seria presidente da Ultrafértil (uma empresa de insumos agrícolas e fertilizantes) e teria uma secretária coxuda, dona Lili, que usaria cinta-liga pra me boquetear depois das reuniões com os acionistas majoritários e fornecedores. Acreditei que Deus podia ter piedade de um garotinho fetichista de 12 anos. Pedi muito dinheiro. Queimei minhas poesias.  Pedi sucesso, reconhecimento, todas as Chacretes e principalmente a Fátima Boa Viagem, e pedi uma vista de 360 graus para o mar de Ipanema. Consegui tudo isso mais ou menos e não cumpri 1/3 das promessas que fiz (as que cumpri, teria cumprido de qualquer jeito…) e, apesar de a Fátima Boa Viagem não ter dado bola para mim, eu continuava renovando as promessas e prosseguia fazendo meus pedidos: não em Ipanema nem de frente pro mar, mas em Santos, a duas quadras da praia do Boqueirão. Ora, foda-se. Eu pedia mais dinheiro, mais Chacretes, etc. Tenho de reconhecer que Deus foi generoso comigo e com os meus fetiches. Tive a Lílian White Fibe nas mãos em meados dos oitenta – quando ela estava no auge da arrogância global.

O tempo passou e então eu resolvi encará-lo de frente – sim, estou falando Dele, do cara. O problema é que para tanto eu teria de cumprir a minha parte: fiz um último pedido, pedi a Deus que me tirasse tudo, inclusive o dom de pedir.

Só agora, depois de 44 anos, é que compreendi que Deus atendeu ininterruptamente todos os meus pedidos, os atendeu diuturnamente, incessantemente. Foda, né? Somente agora, que descobri que compartilho com Hitler a mesma lua amaldiçoada em capricórnio e que minha pressão arterial não permite o uso indiscriminado de Viagra, agora que estou isolado e marginalizado (no centro de um outro lugar que não quero para mim) e ganhando menos do que um garçom de churrascaria, somente agora que meu nome virou piada de mau gosto nos padocks e antecâmaras, que até o Dedé Santana cogitou em suicídio, agora que Ele me tirou tudo, é que compreendi que a cada pedido, a cada promessa não cumprida, a cada guinada pro lado do diabo, em todos os meus vacilos, e foram muitos, eu também o atendia.

Se meu filme não estivesse tão queimado e meu repertório de pedidos, agradecimentos e promessas tão desgastado, eu pediria a Deus uma morte violenta e instantânea, como se – Eu e Ele – realizássemos a quatro mãos a poesia que reneguei a vida inteira. A primeira e a última poesia. O primeiro e o último pedido. A primeira e a última oração.

 

 

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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