outubro 15, 2010

 Que Brasil queremos de volta?

Por Márcia Denser – Congresso em Foco

 "A receita é misturar a exploração dos preconceitos da classe média com a ingênua religiosidade das classes menos favorecidas. E o país, enquanto nação, que se dane!" 

Nem a sobrevivência mais mesquinha e pedestre justificaria para mim silenciar diante do rumo definitivamente fascista da candidatura Serra, que, neste segundo turno, é vastamente apoiado por tudo aquilo que não só representa o mais absoluto retrocesso, como o oportunismo, o atraso, a intolerância cega e irresponsável, tais são as hordas invocadas como “esteios” dessa campanha, como Opus Dei, TFP e Carismáticos (sobretudo os de Sampa). Um eventual governo Serra significaria para o Brasil um novo mergulho nas trevas com direito à revenda da “alma nacional”, lembrando o mote de Aloysio Biondi a respeito das privatizações realizadas no governo FHC e implementadas pelo então ministro José Serra.

Quer dizer, essa direita demotucana, no mesmo pacote em que criminaliza o aborto (“Dilma mata criancinhas!”) e condena a união entre homossexuais, já embute a defesa aberta das privatizações – a começar pela Petrobras –, a abolição do Bolsa Família, e, no intervalo, promete mundos & fundos (que obviamente não vai cumprir), contemplando assim de “a” a “z” a estéril agenda demotucana: para os mais ricos, o incentivo ao ódio; aos mais pobres, a manutenção do medo.

Nada mal.

A receita é misturar a exploração dos preconceitos da classe média com a ingênua religiosidade das classes menos favorecidas. E o país, enquanto nação, que se dane! O fato é que Serra hoje configura o oportunismo mais deslavado da moderna história da política brasileira.

Esse mesmo Serra que responde com evasivas e foge como o diabo da cruz das comparações entre os governos Lula e FHC. Para Gilson Caroni, da Carta Maior, ficou claro, no debate da Band, que Serra promete coisas sem base e silencia sobre como vai cumpri-las. Ora, o eleitor precisa de algo mais concreto do que boatos hipócritas, promessas ocas e ameaças medievalóides (a exemplo das fogueiras do inferno e do sorriso privatista de Papai Noel), tanto para pagar suas contas no fim do mês como empenhar o futuro de seus filhos, para ser convencido a votar no ex-governador que paga os piores salários do Brasil para professores e policiais.

Ao eleitor esclarecido basta um pouco de bom-senso para compreender o perigo que representam religiosos fundamentalistas “pontificando” na administração pública, e, uma vez que Serra se comprometeu com eles, se eleito, o que lhes dará em troca? É uma excelente questão a ser colocada nos próximos debates. Com a total retirada da ajuda do Estado, como se prevê numa hipotética gestão Serra, os poderes conferidos a seitas & quejandos, aliados a uma polícia medíocre e corrupta, acabariam sancionando por completo a ação de milicianos e traficantes. O que faz soar, no mínimo, ridícula a proposta tucana de criação de um Ministério da Segurança. O quadro final seria dum Brasil-Colômbia de pesadelo.

É esse o Brasil que queremos?

Rodrigo Vianna, do blog O Escrevinhador, é categórico: “Pautar o segundo turno com uma temática religiosa é um atraso gigantesco para o Brasil. É evidente que essa temática religiosa não é o que interessa para o país, mas se Serra escolheu o obscurantismo, é preciso mostrar isso à população. O círculo da direita se fecha: ela tem algumas igrejas, a velha mídia e a prática da intolerância. Há espaço para uma centro-direita civilizada no Brasil? Claro. Mas essa direita que avança com Serra não merece respeito. Merece ser combatida. Do lado de Serra, estará muita gente. Mas do outro lado ficará o que há de civilizado nesse nosso país”.

A ideologia da direita é o medo, escreve Simone de Beauvoir. E o ódio, acrescento eu, seu parceiro ideal. Por que o país está sendo dilacerado por ambos.

Num artigo quase nostálgico, "A psicologia de massa do fascismo à brasileira", Luís Nassif toca alguns pontos cruciais:
 
“O país passa por profundos processos de transformação: pela primeira vez na história, abre-se espaço para um mercado de consumo de massa capaz de lançar o país na primeira divisão da economia mundial.

Nos últimos anos, parecia que Lula completaria a travessia para o novo modelo, reduzindo substancialmente os atritos. O reconhecimento do exterior ajudou a aplainar o pesado preconceito da classe média acuada. A estratégia política de juntar todas as peças – de multinacionais a pequenas empresas, do agronegócio à agricultura familiar, do mercado aos movimentos sociais – permitiu uma síntese admirável do novo país.”

O eterno terrorismo midiático já não estava surtindo efeito. Na falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou FHC, seguido por seu discípulo José Serra, passou a apostar tudo na radicalização. Nassif observa:
 
“Nestas eleições, o clima que envolve certas camadas da sociedade é o laboratório mais completo dum fascismo de massa à brasileira – e com acompanhamento online – de como é possível inculcar ódio, superstição e intolerância em classes sociais das mais variadas no Brasil urbano – supostamente o lado moderno da sociedade. Em São Paulo, esse clima é generalizado. Agora, esse ódio não está poupando nenhum setor. É ostensivo, irracional, não se curvando a argumentos ou ponderações”.

Conseguindo expressar algo que há muito eu mesma tenho sentido na pele, Nassif dá seu depoimento:
 
“Minhas filhas menores frequentam uma escola liberal, tolerante em todos os níveis. Mas os relatos que me trazem é que qualquer opinião que não seja contra Dilma provoca o isolamento da colega. Outro pai de aluna do mesmo colégio me diz que as coleguinhas afirmam no recreio que Dilma é assassina. Na empresa em que trabalha outra filha, toda a média gerência é furiosamente anti-Dilma. No primeiro turno, ela anunciou seu voto e foi cercada por colegas indignados. No domingo, fui visitar uma tia na Vila Maria: o mesmo sentimento dos antidilmistas, virulento, agressivo, intimidador.”

Ele arrisca um diagnóstico da atual crise política e social, que divide e maltrata a nação como um todo, responsabilizando sobretudo a mídia hegemônica por este recorrente estado deplorável em que lança o país, tanto no presente, como no passado. A questão é que, fundamentada no ódio, um trabalho da mídia de massa a martelar diariamente inverdades obtusas, terá desdobramentos imprevisíveis que transcendem o processo eleitoral:
 
“A irresponsabilidade da mídia e dum candidato com ambição desmedida conseguiu inocular na sociedade brasileira uma intolerância que demonstra exemplarmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira. Explica também as raízes do subdesenvolvimento, a resistência histórica a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa, é a escassez de homens públicos com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.”

Dilacerado entre o ódio e o medo, ao fim e ao cabo, resta a pergunta: é esse Brasil que queremos de volta?

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