agosto 7, 2011

Chego do enterro de Iracema Sampaio e de repente me vem à sensação, horrível sim, de que Iracema viveu de sonhos e morreu em meio a pesadelos. Baiana de nascimento e sul-mato-grossense de coração, ela deixou esta vida ontem à noite, mas o Estado que ela tanto amou já havia enterrado-a há bastante tempo.

Conheci  Iracema no início dos anos 80, quando me convidou para escrever na sua revista Executivo Plus, por sugestão do amigo Alexandre Bilo (que também já se foi). Escrevia artigos sobre a mulher e outras firulas. Com duas páginas inteiras para preencher, falava de tudo um pouco, não havia censura, não havia pauta.  Pouco depois ela me pediu pra escrever sobre moda. Lá fui eu desbravar o universo fashion quando praticamente não existia nada no gênero na cidade. Tudo isto sem qualquer tipo de patrocínio, literalmente sem dinheiro.

Iracema tocava a revista e promovia eventos. Tudo sem qualquer planejamento, e com margem de prejuízo. Não existiam as leis de incentivo, nem nada que pudesse dar algum ganho financeiro. Na maioria das vezes ela tirava do próprio bolso para pagar despesas. E os eventos eram todos muito concorridos. Durante mais de oito anos ela instituiu o prêmio Garça de Ouro para premiar os maiores contribuintes do Estado. Políticos a reverenciavam, empresários a respeitavam, celebridades (num tempo em que celebridade não era personagem de Reality show) e cantores, todos viam para a festa sem cobrar cachê. Inclusive Sérgio Chapelen, Marcos Hummel, Jair Rodrigues e outros que não me recordo agora.

Uma baiana que inventava moda e fazia história com sua alegria de viver e sua vontade de fazer deste Estado um celeiro de oportunidades e cultura. Não contente com o que já fazia, e sempre com prejuízo, inventou a Gransoja, uma mega feira internacional de grãos e negócios no Albano Franco. Na segunda edição, Iracema e todos os participantes da Feira foram pegos pelo Plano Collor. Os prejuízos foram imensos. Ela perdeu todo o dinheiro, mesmo assim conseguiu honrar todos os compromissos.

Tempos depois, foi ela, uma baiana, que prestou a maior homenagem ao nosso poeta, Manoel de Barros, editando um livro de fotografias e poemas intitulado “Para procurar azul, eu uso pássaros”. O livro, capa dura, edição de luxo, foi lançado com festa no Palácio Popular da Cultura, com direito a recital de poesia com a atriz Cássia Kiss. Manoel, pouco afeito a homenagens e salamaleques, estava presente e, diga-se, poucas vezes o vi tão feliz.

Iracema tinha uma alma tão pura e grande como só as mães possuem, embora ela mesma nunca tenha tido a graça de parir um filho. Mas era mãe de muitos. Sua casa estava sempre cheia de amigos e agregados, gente que não tinha onde morar e iam ficando por lá, fazendo algum trabalho em troca de casa, comida e carinho, muito carinho.  O que ela tinha era dividido com todos.  Nunca, nunca ouvi de Iracema alguma frase de reclamação. Nada era trabalhoso, tudo tinha propósito. Cozinheira de mão cheia passou a se dedicar á literatura gastronômica, publicando livros com receitas e enaltecendo o potencial do Estado com ingredientes da região.

A obesidade e a gula confessa não eram problemas, até o joelho acusar o excesso de peso. Encontrei-a pela última vez em Brasília, numa cadeira de rodas. Tinha ido garimpar recursos na esfera federal para editar mais um livro. Isto pouco depois da morte do seu grande companheiro, Francelmo que também morreu por uma causa. Lembro-me de ter ido à casa dela minutos depois do ocorrido. Eu estava preocupada com sua saúde e com o impacto da notícia da imolação de Francelmo poderia lhe causar. Encontrei uma Iracema tranqüila, forte, ciente de que o companheiro sabia muito bem o que fazia. Sua preocupação era o filho (adotado e adorado) recém entrando na adolescência. Os mesmos que hoje abracei e, a guisa de conforto, disse apenas “Tenha força, ela gostaria disto”.

Iracema foi forte até onde foi possível. Soube hoje que lutou com dificuldades inúmeras. Nunca amealhou fortuna, e o único bem que possuía uma casa na Avenida Tamandaré, estava à venda para pagar seu tratamento de saúde. No seu velório só havia os amigos de sempre.  Nenhuma das pessoas que ela sempre abria as páginas das revistas – e do coração – foi dar seu adeus. O único político presente foi Dr.Wilson, ninguém mais. Nenhum empresário, artista, celebridade, nada. E isto depois de lançar novo livro de culinária há cerca de trinta dias.

Na hora de me arrumar para o velório lembrei-me de uma, das várias passagens que tivemos: Iracema sempre implicou com a minha mania de andar de tênis. Achava que toda mulher deveria andar de salto alto. Um dia ela pegou meus dois filhos, ainda pequenos, e praticamente os convenceu a jogar fora todos os meus tênis.  Dando gargalhadas, ela me contou o fato tempos depois.

Iracema Sampaio, mulher de fibra, de coração, de humildade. O Estado não fez justiça ao bem que você trouxe para esta terra. A maioria desconhece o seu trabalho, porque ela sempre esteve à frente do seu tempo. Pode ser que daqui a algum tempo algum livro de história cite seu nome. Pode ser. Mas do que adiantam as homenagens póstumas? De que vale ter seu nome inscrito na história? Iracema não foi reconhecida em vida. Talvez sua baianidade tenha sido mal interpretada. Iracema era sempre muito e isto não pega bem por aqui. Ela era uma estrangeira e foi tratada como tal. Embora, arrisco-me a dizer, nenhum sul-mato-grossense tenha se preocupado tanto em divulgar o Estado como ela.

Agora o sentimento que tenho também é de desconforto. E a certeza de que este Estado não mereceu Iracema. Um Estado que é governado por estrangeiros, mas que não valoriza quem trabalha por ele, de graça. Um Estado que não venceu os preconceitos. Que não valoriza a cultura nem as pessoas de bom coração. O que mais se pode fazer por um Estado como este a não ser ir embora daqui?  De um jeito ou de outro. Infelizmente.

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