junho 14, 2011

De repente me deu uma não vontade de escrever. Há dias venho sentindo isto, esta não vontade. O sentimento é de absoluta desimportância, algo como saber que nada do escrevo tem relevância ou algum sentido. Afinal, de que adianta comentar notícias, por exemplo, se o que vemos e lemos não é nada mais senão a versão dos fatos? Não existe mais informação, apenas uma guerra de lados, de posições. As pessoas, os noticiários, falam apenas o que lhes convêm, o que interessa, o que vai gerar algum lucro.

Não é apena uma desilusão, mas uma constatação, meio tardia – bem sei –. Porém nunca é tarde pra se aprender alguma coisa. Posso mesmo ter me desiludido com a profissão de jornalista. Há tempos não somos mais os formadores de opinião, os investigadores de notícias. A maioria apenas cumpre o papel – ainda que na maioria das vezes, medíocre – de reportar notícias. Somos meros fabricantes de releases. E quem não compactua com isto está fora do mercado.

Mas deixemos o jornalismo de fora disto. Resolvi escrever hoje apenas para falar do meu dia de ontem , um dia glorioso por assim dizer. E para quem, nos últimos tempos vive numa espécie de reclusão e silêncio espontâneos, o dia foi cheio.  Começou com uma espécie de mea culpa materna, ao perceber que mesmo sem ter consciência, passamos nossas aflições e medos aos nossos filhos. A meditação, felizmente, me fez entender que não existe culpa, mas falsas interpretações. Santa e bela meditação!

Quando voltei ao barulho externo, comecei a sentir a solidão de mais um dia sem telefonemas, emails, visitas, amigos. Mas antes de entrar no túnel escuro – meu velho conhecido – meu filho me convida para um cinema. Sem pensar nem um segundo, desmarco a conferência via skipe com meu ”guru” e aceito de bom grado o chamamento afetivo. Não houve filme – fila lotada de feriado – mas houve uma sessão de cumplicidade que nenhum diretor de cinema do mundo poderia fazer melhor.

Chego em casa a tempo de conversar com meu mais novo amigo de infância, Bhaskar, que conheci na Índia.  Ele mora num sítio perto de alto Paraíso (GO) e o meio mais eficaz de comunicação é via Internet. Eu falei sobre procrastinação e ele respondeu com sabedoria e amor, recomendando mais meditação. “É uma técnica e tem que ser feita todos os dias”, disse ele. Propôs uma semana de experimentação. Depois disto, da semana meditando sobre o tema procrastinar, devo ir ao Paraíso. Para mais meditação.

À noitinha recebo o telefonema do amigo de conversas políticas, filosóficas e afetivas. Mais de 60 minutos de deleite e saudades. Ele reclama que está doente do corpo e eu sugiro reveja a alma. Ou melhor dizendo, o coração. Acho que o medo de amar enfraqueceu o que ele teima de chamar apenas de “músculo”. Mas nada é só aquilo que parece ser. Falamos, sobretudo da impossibilidade de viver no fluxo, nesta era frenética e materialista. Concordamos com a necessidade de retornar ao princípio de tudo. Ele tem planos de morar num sítio e criar galinhas, e eu estou vendo minhas possibilidades.

Arrematando meu dia 13 de junho, vejo filme na TV que corrobora com minhas últimas horas. Um homem que perde tudo, mas não perde a si mesmo. Retorna, pratica a humildade, atravessa humilhações e colhe os frutos do medo. No fim, como em quase todos os filmes, tudo se resolve. Vou dormir agradecida e acordo com vontade de falar apenas do que sinto. Dizem que é o melhor – e talvez o único – meio de se voltar a escrever. Falar apenas e tão somente o que sentimos. O resto é ficção. Ou ilusão.

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