maio 31, 2011

Na última segunda-feira  tive o prazer de falar  para os meus confrades durante tradição encontro na Academia Sulmatogrossense de Letras. O tema sobre qual discorri foi "Mídia, sociedade e literatura em MS". Gostei muito da experiência, embora não seja especialista em falar em público. Mas como disse Fernando Veríssimo: "A única pessoa livre é aquela que não tem medo do ridículo.”, fui em frente e consegui ler um texto que preparei para a ocasião e compartilho com vocês agora. Ah! a reação da platéia foi bem positiva. Boa leitura!

Mídia, sociedade e literatura em MS

O filósofo francês, Louis Bonald disse que “A literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem”. Nada mais verdadeiro. Particularmente não imagino um mundo sem livros. Bil Gates já disse a frase que se tornou célebre: “Meus filhos terão computadores, mas primeiro terão livros”. Todos aqui sabem da importância da literatura. Todos nós que fazemos parte da Academia sabemos também  dos prazeres e da luta que travamos todos os dias para divulgar nossa obra. 

Sim porque o verdadeiro sentido de se fazer literatura é ver nosso trabalho caminhar, passar de mão em mão, de boca em boca ou, pra ser moderna, de site em site, de blog em blog.  Não escrevemos para nós mesmos, ainda que façamos isto com prazer. A meu ver não há sentido no esforço de escrever um livro, fazer a via crucis de editá-lo, organizar as páginas, escolher a melhor capa, programar a noite de autógrafos, convidar amigos, ver nosso nome nos rodapés dos jornais, e depois deixá-lo esquecido dentro de uma caixa num canto da casa. Somos vaidosos sim, todo escritor o é, mas não somos egoístas a ponto de querer que nossas palavras não sigam adiante, como o filho que precisa seguir seu próprio caminho depois de adulto.

 

Pois bem, sabemos de tudo isto, E sabemos principalmente que precisamos contar com a mídia para divulgar nosso trabalho. Ainda que hoje tenhamos a facilidade da Rede de Computadores, convenhamos ainda é uma comunicação pouco eficiente no caso. A não ser que você coloque o seu retrato nu na capa de um livro, dificilmente ele vai parar no primeiro lugar na lista do twitter e do facebook, por exemplo. Mesmo assim, com o passar do tempo ele vai acabar caindo no esquecimento. Estou falando aqui, em particular do nosso Estado, ou melhor, de Campo Grande, que é o mercado que conheço. 

Há sempre um coro de vozes descrentes dizendo que Mato Grosso do Sul não tem tradição literária e por isto tem uma produção incipiente, como se tradição fosse algo que nasce na terra de forma espontânea. 

Vou dizer algo á vocês, inclusive o motivo pelo qual escolhi falar deste tema, ainda que meu forte não seja exatamente falar em público: não existe um núcleo literário reconhecido em Mato Grosso do Sul; não existem leitores suficientes para consumir a produção local; as escolas não se interessam pelo nosso trabalho; as livrarias fazem pouco dos livros que deixamos em suas prateleiras. E a mídia? Bom, a mídia nos contempla com notas, às vezes matérias quando estamos lançando um novo livro. E só. Não há crítica, não há elogios, não existe nenhuma análise da obra. Apenas e puramente publicam aquilo que o escritor fala, ou envia através de release às redações. 

Nesse ponto há que se fazer uma ressalva importante: o Correio do Estado felizmente vem mantendo a tradição do nosso querido e saudoso confrade, professor J Barbosa Rodrigues de manter a página do suplemento literário, ainda que por lá só circule os membros desta Academia. No Caderno B, destinado à cultura, existem jornalistas preocupados em fazer um bom trabalho de divulgação da nossa literatura. No entanto, é curioso relembrar que até  o maior poeta vivo do País, nosso querido Manoel de Barros, foi solenemente ignorado durante muitos e muitos anos pela imprensa local. Claro que simpatias ou antipatias acontecem em todas as redações do mundo. Não é raro vermos um escritor sendo rechaçado ou barrado por algum veículo da imprensa nacional. Mas em se tratando de um Estado que têm tão poucos expoentes nacionais, isto é um pouco desencorajador.

 

Portanto, não é exagero afirmar que de modo geral a imprensa do nosso Estado deixa muito a desejar, principalmente quando se trata de Manoel. Não se dá a ele o lugar de destaque que sua obra merece.

 

Não é exagero afirmar que a mídia de forma geral protagoniza total descaso com a produção local. Vejam  que temos diversas publicações em Campo Grande: três ou quatro revistas mensais, dezenas de jornais e programas de TV, mas nenhum deles, com exceção do próprio Correio, possui em seus cadernos um espaço fixo de literatura. Ninguém sequer oferece espaço para divulgar poesias, contos, crônicas, ensaios ou artigos literários. Sei de escritores, muito bons inclusive, que quase se ajoelham para publicar algum artigo. E nem sempre são atendidos. Fiz questão de pegar os jornais de domingo, tradicionalmente um dia excelente para matérias literárias e não encontrei nada. Novamente, o único a falar sobre literatura e publicar sugestão de livros, foi o Correio. O restante tem seus espaços ocupados por dezenas de colunas sociais, matérias pagas, releases e notícias de pouca ou nenhuma importância. Não posso acreditar que os editores realmente acreditam que não se tem alguma notícia, fato, ou gancho jornalístico para falar de literatura. 

Há pouco tempo, dois meses, trouxe para a cidade a grande articulista, jornalista e comentarista da Globo News, Eliane Cantanhêde, para lançar seu livro sobre a vida do ex-presidente José de Alencar. A presença da jornalista tinha todos os ingredientes para uma boa repercussão na mídia: o ex-presidente estava vivo, mas em seus últimos dias, Eliane Cantanhêde é reconhecidamente uma das melhores articulistas do País. Pois bem, tal não foi minha surpresa quando depois de várias tentativas de falar com a maior rede de televisão local recebi a seguinte resposta: Nós temos agora uma política na redação de não mais fazer divulgação e matéria sobre lançamento de livros. Pasmem! Como consequência deste descaso temos eventos literários esvaziados, com pouco ou nenhum público, O que, convenhamos é uma pena. 

Conversei com alguns jornalistas a respeito da pouca, quase nenhuma referência à literatura sul-mato-grossense e a resposta que obtive foi que os próprios escritores não criam esta demanda; que se lembram de divulgar seus trabalhos apenas na época de lançamento. É um ponto de vista sobre o qual devemos refletir. 

A sociedade campograndense, infelizmente, tampouco está interessada em nossa literatura. Um dos escritores com o qual conversei não fez cerimônia ao confessar que quem compra seus livros são os amigos que vão aos lançamentos. E que nem sempre lêem. Qual a maior tiragem dos nossos escritores, salvo nosso Manoel, claro? Três mil exemplares no máximo. 

Com relação à vendagem então é algo no mínimo pífio. Segundo o próprio Manoel, quando estava fazia parte da editora Record, e tinha acesso aos números, ele vendia apenas, apenas 500 exemplares de cada título dos seus livros aqui no Estado. E estamos falando de um Estado com cerca de quase dois milhões e quinhentos mil habitantes. Nosso confrade, Abílio de Barros, me confessou que sua maior tiragem foi por uma editora do Rio de Janeiro, a Nova Aguilar, que publicou dois mil exemplares da excelente obra sobre nosso Estado “Gente Pantaneira”, uma obra que merece, inclusive, fazer parte do currículo de toda Escola. Assim como ele, outros tantos que merecem e devem estar nas Escolas e Universidades de MS.

Por falar em Escolas, qual autor sulmatogrossense é adotado como parte dos currículos escolares? Nenhum, meus caros colegas. Absolutamente nenhum!  Mas sabemos que algumas escolas da cidade adotaram livros como a obra de um garoto, estudante de 16 anos, aluno da escola Olívia Enciso que resolveu relatar uma viagem do CG a São Paulo com palavras de baixo calão e preconceituosas, e grosserias mil num livro de mais de 200 páginas chamado “Dia 4”. Que é ou era destinado às crianças de 10 anos.  Também vimos, incrédulos e perplexos, o livro, distribuído pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) intitulado "Por uma vida melhor”, da coleção Viver, que valida erros de concordância como “os livro” e “nós pega o peixe”. Um livro que' defende a supremacia da linguagem oral sobre a escrita. 

Caros confrades, nossa Academia é o espaço propício para levantar estas e outras questões. Qual a nossa produção literária? Onde estão as feiras de livros, os saraus, os clubes de leitura? Não temos sequer livrarias na cidade. O que temos são papelarias que vendem livros, normalmente Best Sellers, e alguns sebos, muitos bons diga-se de passagem.  Somos desconhecidos em nosso próprio ninho, esta é a verdade. Em Estados como Minas, Pernambuco, Distrito Federal, sem falar de São Paulo e Rio, a produção local tem mercado e público permanentes. Eles valorizam o que produzem. Claro que são Estados mais antigos, com longa tradição cultural. Mas esta é a única forma de incentivo de melhorar a produção, de fazer surgir novos talentos. Não vamos colher frutos de imediato,  isto é um processo longo. Mas que vale a pena começar a trabalhar por ele agora para que o futuro e o panorama literário do nosso Estado seja melhor.

 

Na minha pesquisa conheci o nome de um poeta que tem vencido diversos concursos de poesia no Brasil e até no exterior. Chama-se Reginaldo Costa de Albuquerque. Nunca tinha ouvido falar. Assim como ele, devem existir outros tantos talentos por aqui que estão no anonimato. E não tem nem como sair dele. Ou nos valemos de incentivos de governo para publicar livros, ou tiramos do próprio bolso a publicação. 

Por falar em incentivo ou patrocínio cultural, muitas pessoas, eu diria a maioria delas, acredita que o governo é obrigado a dar recursos para a literatura (e a cultura de modo geral), que é dele a função de fornecer recursos para publicar e distribuir nosso trabalho. Sinceramente não concordo. Primeiro que governos, políticos, com raríssimas exceções (que não conheço) estão preocupados em fazer eleitores e não formar cidadãos, leitores. 

Tanto isto é verdade que a verba destinada à cultura, seja municipal, estadual ou federal, é sempre a menor. E isto ainda terá que ser dividido entre as diversas áreas da cultura, teatro, dança, música, artesanato, publicações científicas e os eventos, shows que dão enorme retorno de público. Está aqui nosso querido mecenas, Américo Calheiros, que com toda boa vontade do mundo procura fazer, e tem feito, um excelente trabalho de divulgação cultural. Mas ele também é obrigado a seguir as diretrizes e a política do governo. Infelizmente ele não detém o poder nem a chave do cofre. 

E é bom deixar claro que o governo é sim, obrigado a apoiar a educação fomentar projetos culturais, incentivar parcerias público/privadas.. Mas há que se refletir que o INTERESSE PELA LITERATURA NÃO NASCE DE UMA OBRIGAÇÃO, MAS DO AMADURECIMENTO POR QUE PASSA TODO CIDADÃO NO SEU APRIMORAMENTO PESSOAL.E isto é papel da educação. 

 Por falar em educação no Estado, as próprias universidades têm uma postura hermética quando se trata de literatura local. As oficinas e cursos de literatura, como me relatou o presidente de uma instituição, com raras exceções, são sempre eventos privados. Ou por outra, não são divulgados adequadamente para o grande público. Cultura, infelizmente, parece ser algo destinado a uma elite. 

O cenário como vimos, não é dos mais bonitos. Mas como sou otimista, acredito que ele pode e deve melhorar. Mas para isto é preciso fazer a nossa parte. Afinal, o índice de leitores aumentou 150% nos últimos dez anos. Passou de 1,8 para 4,7. E isto é uma boa notícia. A pesquisa do Ibope Inteligência encomendada pelo Instituto Pró-Livro para conhecer um pouco mais sobre os leitores brasileiros revelou também: 

•39% dos 95,6 milhões de leitores de livro no Brasil estão na faixa etária de 5 a 17 anos e outros 14% na faixa entre 18 e 24 anos; 

•o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. O estudo constatou que somente a leitura de livros indicados pela escola, o que inclui os didáticos, mas não só, chega a 3,4 livros per capita. A leitura feita por pessoas que não estão mais na escola ficou em 1,3 livros por ano. A pesquisa também confirma que as mulheres lêem mais que os homens – 5,3 contra 4,1 livros por ano. 

Esta pesquisa, que tem o nome de “Retratos da Leitura do Brasil” também apresentou um ranking dos livros mais lidos pelos brasileiros – perguntou-se aos entrevistados qual o último livro lido ou então qual o livro que está sendo lido agora. O ranking foi o seguinte: 

Se pudermos classificar estes 29 livros em categorias, teríamos algo como: dois espirituais (a Bíblia e “Bom dia Espírito Santo”), cinco de auto-ajuda/esotérico (“O segredo”, “Violetas na janela”, “O monge e o executivo”, “O Grande Conflito” e “Quem mexeu no meu queijo”), três romances internacionais (“Código da Vinci”, “O Caçador de pipas” e “Romeu e Julieta”), seis romances nacionais (“Dom Casmurro”, “A Moreninha”, “Senhora”, “Iracema”, “O Cortiço” e “O Alquimista”), 10 livros infantis internacionais (“Harry Potter”, “Cinderela”, “Chapeuzinho Vermelho”, “Branca de Neve”, “Os três porquinhos”, “A bela e a fera”, “Peter Pan”, “A pequena sereia”, “Pinóquio” e “Pequeno Príncipe”), dois livros infantis nacionais (“O sítio do pica-pau amarelo” e “O menino maluquinho”) e uma biografia (a de Edir Macedo). 

Não é exatamente uma lista literária positiva, mas como leitura é a pedra fundamental do conhecimento humano eu creio que, independente do que seja lido, é melhor ler algo a não ler coisa alguma. O importante é saber que existe um nicho de mercador, leitores que precisam e podem ser conquistados.

 

Como dissemos, nós podemos e devemos fazer alguma coisa para melhorar a leitura no Estado e, claro, a divulgação dos nossos trabalhos. Citando a professora Maria da Glória Sá Rosa, incansável divulgadora da nossa cultura, no livro recém lançado “a literatura sulmatogrossense na ótica de seus construtores” ela diz: Se compararmos a Literatura de Mato Grosso do Sul com o que já se produziu e se produz em outros Estados, observaremos que é uma Literatura muito jovem, que se encontra em processo de construção, explorando caminhos que redimensionam imagens em busca de consolidação. 

Entretanto a melhor maneira de contribuirmos para que essas representações literárias locais encontrem seu lugar no contexto das produções escritas é oferecer oportunidades para que os leitores conheçam os textos dos nossos autores, pois só assim terão condições de apreciá-los e julgá-los convenientemente”. 

Como fazer esta divulgação, tendo tão pouco acesso à mídia? Podemos citar o exemplo dos Estados Unidos onde os escritores fazem algo que por aqui não se vê frequentemente, que é sair em turnê com suas obras, como se fossem uma banda de música fazendo turnê para divulgar um novo disco. E novamente destaco aqui a professora Glorinha que junto com a professora Idara Duncan são as únicas pessoas que vem fazendo este movimento há anos em nosso Estado. 

A nossa querida confreira, poetisa Raquel Naveira, que tanta falta faz ao cenário cultural da cidade, também fez, e deve continuar fazendo lá no Rio, onde mora atualmente, um trabalho de formiguinha com sua literatura. Era freqüente vê-la em Feiras, simpósios e encontros literários, sempre com seus livros debaixo do braço, divulgando sua excelente poesia. 

Outras sugestões que colhi junto a escritores e jornalistas foram: batalhar pela criação de uma Feira anual de literatura; organizar premiação de escritores fazendo parcerias com empresas e governo; oferecer para dar palestras em colégios ou faculdades; organizar mesa redonda sobre a importância da leitura na vida das pessoas.  

Outro ponto que julgo essencial é acabar com esta fantasia de que escritor só escreve por diletantismo. Um escritor é alguém que têm direitos e obrigações como qualquer outra pessoa, que leva os filhos para a escola, paga contas e almoça com a família aos domingos. 

É preciso quebrar certas barreiras, alcançar determinadas pessoas que podem vir a serem leitores fiéis. É MUITO ARRISCADO OPINAR SOBRE UM FATO QUANDO ESTAMOS ENVOLVIDOS POR ELE.  Mas em minha OPINIÃO, A LITERATURA NO MATO GROSSO DO SUL DEPENDERÁ DA NOSSA OUSADIA, DO NOSSO ATREVIMENTO E TAMBÉM DE NOSSA PERSISTÊNCIA. 

 Nós, escritores, podemos fazer muito mais pela literatura do que pensamos. E, no final das contas, quem mais vai ganhar com isso somos nós mesmos, já que poderemos vender mais livros, conseguir mais leitores e até mudar paradigmas. Tradição cultural se constrói, e somos nós os responsáveis por esta construção. 

. Por fim gostaria de encerrar essa palestra com um trecho da poesia do nosso poeta maior, como forma de prestar uma homenagem a uma das figuras mais eruditas e ao mesmo tempo mais simples e gentil que conheço.  Seus versos pra mim são a melhor forma de nos lembrar a beleza das palavras e da nossa língua. 

 Mundo Pequeno.

Manoel de Barros 

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas 

leituras não era a beleza das frases, mas a doença 

delas. 

Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, 

esse gosto esquisito. 

Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. 

– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse. 

Ele fez um limpamento em meus receios. 

O Padre falou ainda: 

Manoel, isso não é doença, 

pode muito que você carregue para o resto da vida 

um certo gosto por nadas…

 

 

 

 

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