Abril 13, 2012

Que o jornalista Dante Filho escreve bem todo mundo sabe. Mas cada texto seu ainda me surpreende. Ele comete a proeza e a coragem de se superar a cada artigo, publicado ou não. Como este, intitulado "Só chuva de dinheiro pode combater a corrupção", que me enviou hoje, e faço questão de publicar, ainda que ele fique um tanto reticente, com receio de ferir suscetibilidades. Duvido que isto aconteça. Sua lucidez e até seu desencanto sincero diante das absurdas questões políticas deste País, não são nada mais do que o grito preso na garganta dos lúcidos e inconformados, como ele. Aliás, como muitos de nós. Suas palavras são puro deleite intelectual. Aproveitem a leitura!

"Vem aí uma nova safra de atos públicos contra a corrupção. Meu amigo Fausto Mattogrosso me convoca para, no próximo dia 21, na Praça do Rádio, em Campo Grande, colocar minha indignação na rua, protestando contra o dragão da maldade que assola o País.

Fausto é um dos meus heróis da resistência preferido. Sua disposição de luta me traz no peito lufadas alegres e revigorantes de um tempo em que tudo era mais sereno e puro, mesmo havendo mais medo e terror. Na minha comissão interna da verdade, estou quase esquecendo que um dia houve ditadura no País. Mas deixa isso pra lá…

O assunto que interessa é o seguinte: é com dor no coração que informo ao meu querido Fausto que o ato anticorrupção de 21 de abril não vai dar certo. Isso não é conformismo. É apenas constatação sobre o curso natural da vida e das coisas.  Ninguém se dispõe a sair de casa para ouvir o óbvio que ulula nas entranhas da lua (poético, né?).

E no fundo, bem lá no fundo, quem se importa com o assalto aos cofres públicos? Parece que pouquíssimas pessoas. Nos últimos dias pesquisas e mais pesquisas mostraram e comprovaram que o povão está adorando tudo isso que está aí. A Dilma está brincando de faxinar e tem larápio vibrando com a coisa porque sabe que à medida que se crê nesta distração fica mais fácil continuar o saque ao erário. Noutras palavras, gostamos de ser roubados.

O pessoal que organiza atos contra a corrupção acredita, porém, que a chama deve ser mantida acesa por “questões estratégicas da luta democrática” (chavões gastos para ideias mofadas), mas sou obrigado a confessar que fico torcendo que haja uma surpresa e a Praça fique lotada. Mas constato entristecido que a cada “evento” a decepção cresce e o ânimo se esvai. A baixa participação e o desinteresse são notáveis. Muitos questionam as razões pelas quais o povo não participa desses momentos cívicos, mas a resposta certamente daria um compêndio de proporções bíblicas.

É provável que a corrupção só venha a mobilizar a população quando a conjuntura engrossar o caldo do desemprego crônico, da economia fraca, da inflação alta, da escassez de alimento e da violência pesada nas ruas. Mas reparem: o governo vem esticando a corda do estímulo ao consumo e ao crédito fácil para ganhar tempo e deixar que essa bomba estoure no colo de outros agentes políticos, talvez no dos “neoliberais”.  Estou cada vez mais convencido de que corrupção como tema político isolado esvazia o sentido de qualquer movimento político.

A luta contra a corrupção serve apenas para dignificar alguns discursos e enaltecer seus figurantes. É tudo vaidade. Vejam o que aconteceu com o senador Demóstenes Torres? O personagem que ele inventou derruba qualquer lógica que possa sustentar um movimento deste tipo. A realidade brasileira é cínica demais para conferir qualquer aspecto de moralidade à luta anticorrupção. Infelizmente.

Já pensei inúmeras vezes como fazer para levar as massas às ruas num ato contra a corrupção no Brasil. Quem sabe contratar aquelas louras ucranianas que tiram a roupa em praça pública? Poderia ser um sucesso, mas seria transparente demais para um País que só tolera a exposição por inteiro do corpo durante o carnaval porque se trata de uma espécie de manifestação catártica de todos os nossos males. Na verdade, o carnaval nada mais é do que a homenagem suprema que fazemos ao nosso apego cultural a delitos de todos os tipos.

Talvez a corrupção como energia política só pudesse se concretizar efetivamente como força popular usando a atração de seu elemento vital: o dinheiro. Não estou propondo usar a corrupção para fomentar a luta anticorrupção. A ideia seria mais simples. Primeiro, criaríamos o Dia Nacional do Combate à Corrupção. Em seguida, construiríamos um imenso galpão para guardar todo dinheiro roubado lá dentro.

Esse edifício ficaria extremamente bem guardado sob a vigilância permanente de câmaras internas de TV, como numa espécie de BBB do roubo. Aí, no dia marcado, a população brasileira seria convocada para pegar nas mãos o dinheiro roubado, que seria aspergido de helicópteros e aviões no espaço aberto do nosso céu azul anil. Seria uma sensação.

Com certeza, isso não acabaria com a corrupção. Mas que mobilizaria milhões de “manifestantes”, isso (confie em mim, Fausto) seria mais do que um fato concreto: seria o óbvio ululando nas entranhas da lua, companheiro!".

*jornalista (dantefilho@folha.com.br)

 

 

 

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