Março 31, 2010

A popularidade de Lula está fazendo mal ao País

Dante Filho*

 

As pesquisas de opinião reiteram que o presidente Lula é um fenômeno de popularidade. Os índices positivos que atravessam o segundo mandato de seu governo são surpreendentes. Esta questão tem demarcado inclusive os parâmetros de ação política no Brasil. Mas será preciso percorrer um tempo histórico mais longo para se compreender inteiramente o que representa verdadeiramente este processo. Por enquanto, o que se pode concluir é o seguinte: a popularidade do presidente é resultado de componentes sistêmicos que confluem dentro do mesmo eixo uma combinação de bem estar geral da população com a economia, e a maneira previsível de como o mercado e seus negócios vem sendo conduzidos.

Os fatores que agregam essa sensação à imagem presidencial ficam por conta de sua exposição maciça na mídia a partir do modelo mercadológico muito próximo daquele que auto-alimenta a indústria de celebridades e encanta as massas semi-informadas. Tem mais: produz-se de forma massiva uma mistura de notícia com propaganda sem que se separe claramente o público e o privado, dando a impressão de que o desempenho do mundo empresarial depende da mão invisível do Estado, daí resultando a (falsa) idéia de onipresença do governo em todos os nichos da vida nacional.

Noutra ponta, resiste-se em abrir os pontos de conflitos com reformas estruturais, conciliando interesses de toda a ordem. Quando há polêmica, como no caso dos royalties do pré-sal, ou do Programa Nacional de Direitos Humanos –PNDH-3 -, Lula afasta-se da crise, conta uma mentira, e tudo fica por isso mesmo. Assim, surfando na onda da bonança econômica, jogando com interesses difusos e sugerindo aos olhos do público uma esperteza folhetinesca, o presidente segue adiante, fortalecendo a famosa mitologia de estilo futebolístico de que “a taça do mundo é nossa, com o brasileiro não há quem possa…” Há quem acredite que isso nutra de maneira positiva a auto-estima da sociedade. Um povo satisfeito com a sua principal liderança política impulsiona processos psicossociais otimistas, estabelecendo um ambiente de prosperidade geral nos centros vitais da sociedade. Isso ganha um componente energético extra quando o líder é um cara que veio de baixo e tem um jeitão do brasileiro comum. Daí para que haja uma espécie de excitação sebastianista no inconsciente coletivo é um passo curtíssimo.

O que merece reparo – e aí reside a gravidade de todo este processo – é a maneira como se faz o uso desses mecanismos no atual momento de nossa história. Lula aproveita o bom momento para nivelar por baixo todos os padrões de moralidade pública. É incrível, mas em vez de se estabelecer como liderança positiva para referendar critérios de avanço qualificador, ele aposta na vertente contrária: reforça os vícios do atraso e não oferece saídas para as amarras seculares que mantém o Brasil como um País desigual, pouco educado, com saúde precária e com níveis de violência urbana alarmantes. Que Lula galvanize sentimentos ufanistas, nada contra, mas que se aproprie da idéia de consenso em torno de sua popularidade para fazer tabula rasa dos padrões éticos da política, desprezando a questão básica da democracia e dos direitos humanos, isso deve ser analisado com senso crítico acima dos critérios de preferências partidárias. Incomoda o fato de que o presidente se sinta estimulado pelos institutos de pesquisas a ultrapassar os limites que a liturgia do cargo exige.

Nos seus pronunciamentos destacam-se frases que revelam um pensamento tosco, numa linha de raciocínio de que sua popularidade o libera para dizer qualquer coisa que, em outra circunstância e na boca de outro personagem, se transformaria num verdadeiro roçado de escândalos. Ele se dá pouco para as críticas, dando a impressão de que concede aos seus críticos a exuberância da aprovação de sua estultice. Do ponto de visto pedagógico, indispensável dizer que a falta de pudor presidencial com gestos e palavras banaliza sentimentos anti-republicanos. À medida que se despreza instituições como os tribunais de conta, a justiça eleitoral, e mesmo as regras internas do legislativo (utilizando métodos de aliciamento com forte lastro no esquemão do toma-lá-dá-cá), deixa claro que não respeita os contrafreios institucionais e age como se o País estivesse no Império. A popularidade tem gerado na cabeça de Lula uma confusão preocupante que se traduz por uma megalomania difusa, demarcando uma política externa errática e atabalhoada. A condescendência com Cuba, Venezuela e Irã demarca claramente uma identificação com idéias fora do tempo. Lula segue adiante porque poucos se importam com isso.

Mas chegará um momento em que muitos por aqui vão saber que a tolerância com regimes medievais representou custos humanos incalculáveis. É provável que a desconstrução de Lula ocorra – é o mínimo que se espera – quando a sociedade perceber que a sensação de bem estar que acontece neste momento é uma questão sistêmica, que independe deste ou daquele mandatário, fruto do ambiente do mercado mundial. Se o quadro econômico piorar em 2011 e 2012 como se prevê, dificilmente vai se atribuir à herança maldita de Lula a causa do problema. Ele permanecerá habitando os corações e mentes dos brasileiros. Se ocorrer o oposto, é provável que sua imagem seja relativizada e o fervor atual se abrande porque se perceberá com clareza que ninguém é dono da prosperidade.

É provável que o legado de Lula para o futuro não será sua popularidade. Será a lembrança de sua leniência com a corrupção, seu combate à liberdade de imprensa, o apoio a Chávez e Fidel, e sua ânsia por manter o poder a qualquer preço com uma aliança tática mantida com Sarney, Renan e Collor. A sensação de bem-estar experimentada atualmente pela sociedade pode dissipar-se na memória e se recolocará em nova circunstância, sobretudo quando Lula não estiver mais na presidência. É difícil ser resiliente fora do poder. O que pode ficar na lembrança são os escândalos protagonizados pelos Dirceus e Delúbios da vida com a conivência presidencial. O chamado “espetáculo do crescimento” colocará no centro do palco outros protagonistas. Talvez menos histriônicos e boquirrotos, embora (quem sabe) mais competentes e muito mais sóbrios. Há quem aposte que, mesmo assim, o mito de Lula será uma sombra para todo e qualquer governo que o suceda. Tenho minhas dúvidas.

A sociedade contemporânea caracteriza-se pela sua imensa fluidez, a qual não possibilita certezas com base em análises do passado. E assim Lula vai em frente, com seu voluntarismo meio circense, brincando com a lei, desrespeitando a justiça eleitoral, inaugurando castelos de areia, armando seus joguinhos a bel prazer, desfrutando dos recursos públicos para embalar seu projeto de poder. O povo parece gostar. Ninguém parece se incomodar. Tudo bem, tudo certo. Enquanto o futuro não chegar, como se diz, “deixa o homem trabalhar”

 

 *jornalista e escritor

Deixe o seu comentário

  1. Renato Ferreira disse:

    artigo lucido e sensacional. parabens

Deixe o seu comentário

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com