outubro 24, 2010

No pequeno auditório com imensas janelas cobertas por persianas brancas, cerca de 30 ou 40 pessoas (nunca sei bem visualizar pessoas numericamente) esperam devidamente acomodadas a sua vez de serem chamados. Antes disto, deste tempo de espera, houve uma espécie de palestra que, acredito eu, gerou certo desconforto na maioria dos presentes. Ao meu lado minha amiga Zika que é a 11ª da fila. O atendimento é feito pela ordem de chegada, não obstante o horário marcado para todos seja pontualmente às 7 horas da manhã. Chegamos as 07h04 e já havia 10 pessoas na sala de espera. Não estamos em nenhum hospital público, mas é como se fosse. Aqui dentro, todos são absolutamente iguais. É a regra. Funciona para autoridades, celebridades, políticos, artistas e milionários.

Enquanto Zika folheia uma revista de fofocas, espicho os ouvidos para a conversa ao lado. Um jovem de aparentemente 20 anos conversa com um senhor bem encarquilhado, uns 60 anos talvez, e pergunta se é a primeira vez que ele vem ao local. “É a segunda”, responde o senhor com um sorriso como querendo prolongar a conversa, e pergunta: “Qual é a sua substância, meu filho?”. “É crack, senhor”. Ele explica que começou a fumar há uns seis anos e tinha acabado de sair de uma clínica onde passou seis meses. “Mas não adiantou muito, porque dois meses depois tive a recaída”, comentou. Ao lado do senhor, um homem de uns 40 anos, disse ser o filho. Não dava para distinguir quem era o acompanhante. Só descobri quando o jovem perguntou: “E o senhor, qual é a sua?”. Ele sorriu e disse como se fosse a coisa mais natural do mundo: “Álcool, né meu filho, álcool”.

O casal da frente explica para a senhora de decote que aquela era a última chance deles. “Se ele beber de novo o doutor diz que ele morre”, contou a esposa. Isto, segundo ela, porque os medicamentos são muito fortes e junto com a bebida eles podem causar sérios problemas. A mulher do decote diz que só não gostou do que a psicóloga disse sobre as coisas a evitar. “Ficar sem álcool e ainda não poder comer chocolate e tomar café? Pra quê viver, então?”, reclama.

Não foi difícil convencer minha querida amiga para viajar mais de 600 quilômetros até a clínica, que segundo me disseram, atende cerca de 60 a 70 pessoas por dia de todas as partes do Brasil e até do exterior. Quando sugeri o lugar, ela estava se sentindo no fundo do poço e aceitou minha ajuda sem titubear. A indicação me foi passada por alguém que já estava sóbrio há 10 anos. Ele foi até lá apenas para levar o filho, mas querendo ser solidário acabou fazendo o tratamento também. Pra ele deu certo, mas para o garoto não.

Falei que a palestra tinha sido incômoda mas não expliquei o por que. Simplesmente porque ela fala tudo o que o doente sabe mas não tem coragem de repetir em voz alta. Que é sim uma doença (genética e hereditária), que não tem cura e o único remédio possível é a sobriedade. Fora isto é morte certa. A psicóloga explica que a propensão à doença está aumentando a cada dia. E que ela se desenvolve em mais ou menos de 6 a 10 anos de consumo. É mais veloz nas mulheres que nos homens.

Olho para os lados e vejo mulheres, homens, jovens, idosos. Mães acompanhando filhos, maridos, irmãos. Filhos levando pais, esposas, mães. O clima entre todos é de camaradagem, ou de cumplicidade, já que todos ali são portadores da mesma doença. O que muda é a substância.

Enquanto observo as pessoas vou anotando no meu bloquinho as minhas impressões. Zika se incomoda com meu hábito de anotar tudo. “Mas nem aqui você para de escrever?”. “Preciso passar esta experiência aos outros”, respondi. Ela simplesmente abaixou a cabeça e começou a chorar baixinho. Fiquei segurando sua mão até ouvir seu nome ser chamado pela enfermeira.

A consulta é privada e leva cerca de 30 minutos. Depois disto o acompanhante, no caso eu, é chamado a participar da conversa. Antes disto o paciente faz alguns testes e toma uma injeção – que eles costumam chamar de vacina – que é diferente para cada um. Ao entrar no consultório me surpreendo ao ver um médico novo, com boa aparência e extremamente bem educado. Não resisto e vou logo falando: “Mas doutor, achei que ia encontrar alguém mais velho”. Ele me explicou que herdou a clínica do pai, que herdou do avô. Três gerações de médicos com o mesmo propósito: ajudar as pessoas portadoras da doença mais que mais mata no mundo e que, ao mesmo tempo, a mais subestimada.

O acompanhante (obrigatório), além de ser uma força e amparo, precisa ser informado sobre o tratamento. A doença, como qualquer outra, não pode e não deve ser tratada apenas pelo paciente. É preciso ter alguém ao lado para ser uma espécie de suporte, alguém que o ame o suficiente para estar ao seu lado nos momentos mais difíceis.

Peço desculpas ao médico por anotar o que ele me fala, mas ele diz que tudo bem. Que não costuma dar entrevistas, mas é bom que as pessoas saibam que a doença existe e que é possível evitá-la. Saímos de lá com várias receitas e uma esperança. Zika volta novamente dentro de 60 dias para a segunda parte do tratamento. Desta vez não vai precisar de acompanhante. Mas ando pensando muito em voltar aquele lugar que pode transformar vidas para sempre.

PS. Segundo o médico, não há índices formais de sucesso, mas ele crê numa probabilidade de 60 a 70%. É um bom número.

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