dezembro 9, 2011

“Sou garoto de programa. Faço tudo por 10 reais”. A frase escrita no lado de dentro de um orelhão da esquina perto de casa não me choca. Mas me entristece. Sinto como se fosse o outro lado da mesma moeda fraca, desvalorizada. Em situação de desalento, sem trabalho, sem dinheiro, sem perspectiva nem expectativas, percebo alguém cujo desespero vai além do pensamento ou da imaginação. Alguém que transformou a dor de viver numa espécie de altar de sacrifícios. A dor em prazer ou o prazer em dor. Devo admitir que a desesperança dele não se compara a minha que, felizmente, posso traduzir em letras. Não em atos.

Começo a imaginar como será a vida deste rapaz –  imagino que seja sim, um rapaz, pois velhos não costumam colocar seus corpos à venda por uma simples questão de oferta e procura – que faz marketing do seu, digamos, ofício, num orelhão do centro da cidade, e com direito a telefone de contato. Como será a sua rotina? Terá talvez uma família, um lar? Será que é bonito, atlético, ou feio e franzino? Será que este mecanismo de propaganda funciona? Que tipo de pessoa aceita a oferta de um “anúncio” no orelhão?

Por 10 reais ele faz tudo. Por apenas 10 reais qualquer pessoa pode dispor do corpo – e da alma – deste rapaz. Pode tocar suas partes mais íntimas, penetrar nas suas entranhas, rasgar sua pele, morder sua boca, puxar-lhe os cabelos, derramar-lhe a satisfação, lançar-lhe olhar de desprezo. Pode até, e não é raro, espancar-lhe até a morte.  “Faço tudo por 10 reais”. Pela módica quantia de 10 reais, mais a ligação telefônica, ele se sujeitará a tudo e a todos: covardes, tarados, reprimidos, solitários, desesperados, raivosos, frustrados, homens, mulheres e gays.

Imagino qual será o faturamento diário deste negócio. Quanto seu suor lhe renderá no final do mês. Num dia de bom movimento ele poderia atender 10 clientes? E se atendesse o que faria com seus 100 reais? Compraria uma calça nova? Pagaria aluguel de um quartinho de fundos? Faria o supermercado da mãe? Gastaria tudo em cerveja no final da noite? Será que esta quantia é o bastante para mantê-lo a salvo de traficantes?

Não importa a finalidade do seu soldo diário, semanal ou mensal. O que me intriga é o saldo da sua desilusão, do seu desprezo por si próprio, da entrega, do vazio de todos os dias e da possibilidade real de ter a vida interrompida a qualquer instante, por qualquer um. Gostaria de saber o que lhe apetece neste ofício de objeto sexual, e como se sente sabendo que nunca receberá nada em troca que não seja uma nota velha e gasta, ou um monte de moedas, quem sabe passe de ônibus, um papelote de crack, uma cerveja, uma faca?

Por 10 reais um pobre rapaz fornece a vida. E deixa levar também um pouco dos seus sonhos, sua tênue esperança, sua mínima dignidade e até a sua alma, ainda que dilacerada. E de graça ele dá uma crônica. Que apesar de não ter graça nenhuma é terrivelmente verdadeira. Nunca a vida valeu tão pouco para tantos. É mesmo selvagem este  capitalismo.

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