outubro 13, 2010

Ainda sob a emoção do resgate dos mineiros no Chile, que acompanhei desde a primeira hora, leio email de Zika, postado na noite anterior. A decantada “Despedida em Las Vegas” idealizada por ela, antes de ir para a clínica no interior de São Paulo, não foi bem sucedida. “Não consegui ir até o fim”, é a sua primeira fase. A princípio pensei no pior, mas a segunda frase me livrou dos temores. Nos projetos de Zika, a semana toda seria de festa. Iria sair com amigos, se divertir, beber sem culpa e depois, satisfeita, viajaria pra se cuidar. Quando ouvi seu plano, quatro dias antes, pensei mesmo que não era uma boa alternativa.

É quase impossível se despedir de uma doença crônica – e segundo dizem, incurável, como se ela fosse embora para sempre. Tenho outro amigo, diabético há ano, que não consegue se livrar dos doces que ele tanto gosta. Certo dia chegou a me dizer que a vida não tinha a menor graça se não pudesse comer açúcar. E ele, definitivamente, não pode. Mesmo assim mantém um estoque razoável de todas as guloseimas açucaradas no seu quarto. Se ele resolvesse despedir delas, fatalmente iria parar no Pronto Socorro se não morresse antes.

Mas Zika não pensava assim. Achava que tinha controle absoluto da situação. Contudo, o inocente churrasco do domingo, regado (até onde lembra) a dois copos de cerveja, três ou quatro de vinho e alguns digestivos, estava dentro da normalidade. Principalmente para quem, como ela, teve épocas de ingerir uma garrafa inteira, e sozinha, de uísque.

O almoço, de acordo com seu relato, estava agradável demais. Encontrou pessoas que não via há tempos e o clima era de entusiasmo total. Ela só queria prolongar aquele prazer. Ao invés disto, Zika apagou total. Não sabe o que disse o que fez, e a única coisa que se recorda foi da ligação, desesperada, para o irmão – que, para variar não atendeu ao telefone.

“Por que você não me pediu socorro?”, escrevo de volta. Mas Z nunca me liga nessas situações. “Fico impotente demais e com receio de incomodar”, escreve de volta. Então sofre sozinha. Passa a noite entre pesadelos, vergonha, culpa e a busca por remédios que lhe atenuem a dor. Uma dor que não se resolve em frascos.

Minha amiga, como já disse, tem muito medo da sobriedade total e absoluta. Ela vive à flor da pele. O mundo não lhe apetece, as relações não lhe interessam, a vida perde o sentido. Tem medo, sobretudo, do confronto consigo mesma, muito embora eu tenha certeza de que seu mergulho existencial é mais profundo que imagina.

Agora está intocada em casa. A única forma de comunicação que aceita é através do email. Também voltou a rezar, me contou chorosa. Quer dar mais uma chance pra Deus. Quando toco no assunto dos mineiros, ela tecla mil suspiros e diz que sente inveja, muita inveja de todos eles. “Eles conseguiram ser resgatados. Eu, ainda não!”.

Será que existe alguma cápsula que possa arrancar Zika do fundo do seu poço? Espero que sim.

Deixe o seu comentário