junho 26, 2010

                              Quatro dias desfrutando a magia do Perú

                Quando a aeromoça sugeriu que olhasse para o lado esquerdo e apreciasse o Lago Titicaca, não contive a emoção. Uma onda de prazer me invadiu totalmente e minha vontade era de gritar de alegria. Era meu aniversário de 53 anos e eu estava prestes a realizar meu sonho de conhecer Machu Pichu. Pela primeira vez estava passando a data absolutamente só: não iria escutar o indefectível “parabéns”, não receberia flores”, não haveria festa. Mas eu estava muito feliz. Na verdade não me lembro de me sentir tão feliz assim há anos.
               A viagem ao Perú começou como um sonho acalantado há tempos. Mas há um ano estava sendo delineada através das constantes conversas com simpático jovem de agência em Lima. Ensaiei várias vezes, mas sempre havia um imprevisto ou falta de dinheiro. Mas um simplesmente acordei e disse pra mim mesma: vou comemorar meu aniversário no Perú. Sem companhia sim, mas com a forte convicção de não fazer planos, de deixar acontecer. Planejei a viagem apenas no essencial, sem expectativa nem planejamento de roteiro extra. Dois antes começaram os problemas: por um lapso, na hora da compra, apresentei uma identidade antiga e que já não possuía mais e o nome na passagem não era o mesmo de agora. Não era possível viajar com o bilhete, me disse a moça da TAM. Levei anos para trocar a identidade e agora quando mais preciso dela não a tinha mais.  Seria preciso fazer nova reserva (pois não se pode trocar simplesmente o nome no bilhete) e não havia mais lugares disponíveis na data prevista.
               Desolada, pensei desistir. Melhor seria pedir o reembolso da parte terrestre do que dispor do resto dos pontos para novo bilhete. De Lima, meu agente dizia para eu arriscar, mesmo sem documento que provasse que eu era a mesma pessoa do bilhete. Mas não aceitei. Claro, ele não queria me reembolsar o pagamento. Cheguei a pensar que não era mesmo a hora certa, que os Deuses não queriam que eu fosse. Fiquei sem dormir, sem comer, só meditando. Horas antes decidi que pontos foram feitos para gastar e que eu não iria mais desistir das coisas como sempre faço. Menos de 8 horas antes do embarque, consegui outro bilhete (com os meus suados pontinhos) e uma classe executiva como up grade. Começavam as surpresas da viagem.
              Na capital do Peru o guia me esperava lá fora todo sorridente. No simpático hotel só tive tempo de deixar as malas e partir para o nosso tour pela cidade. Aliás, uma grande cidade com bela arquitetura, museus e belos templos.
Terminado o tour era hora de procurar um local para “festejar” meu aniversário. Mas tudo que encontrei, mais ou menos próximo do hotel, foi um restaurante indicado pelo guia e que não era lá essas coisas. Mas não era hora de luxos e sim de experimentos. Pedi o prato local, um ceviche que se levou melhor do que imaginara e uma taça de vinho – peruano. O garçom, a quem não resisti e contei que fazia cumpleãnos, me ofereceu uma taça de Pisco, bebida tradicional do lugar. Mas depois do primeiro gole, pressenti que não seria uma boa idéia. A bebida, feita de casca de uva, é extremamente forte. Muito parecida com a grappa italiana. É um gole e um tombo! Melhor dormir cedo, pois o vôo para Cuzco sairia às 5 da manhã.

            Acordo às 4 e tomo o avião rumo a cidade mais visitada na América Latina, palco da civilização andina.
Na chegada. Sob frio intenso, outro peruano simpático me aguarda à bordo das tradicionais tabuletas onde se lia meu nome – meu novo nome. No hotel logo me oferecem um te de coca que tomo com prazer, pois a altitude já me incomodava. Teria três horas de descanso antes do primeiro tour. Nunca três horas foram tão prodigiosas e bem aproveitadas. Dormi profundamente e quando acordei estava pronta para descobrir os mistérios e as belezas de Cuzco. O guia já me esperava, desta vez um rapaz de nome Jonatan que se revelou um profissional de primeira. Fizemos um longo percurso pela cidade à pé, onde pude ver – e tocar – nas lindas lhamas que circulam pelas ruas. Conheci a reserva de animais com nomes estranhos como Alpaca (que pra mim era nome de tecido), Vicunha e, claro, as lhamas. Da alpaca de saem fios  macios para fazer casacos, tapetes, bichinhos. A carne também é amplamente consumida pelos locais.
              Nas ruas, apinhadas de pessoas de todos os lugares do mundo, podia-se ouvir o som de diversos idiomas que se misturava ao som da música peruana e seus instrumentos de sopro que fazem o deleite de ouvidos sensíveis.
A vestimenta das mulheres me encanta. Coloridas, brejeiras, alegres. Com seus imensos chalés amarrados às costas, elas carregam seus rebentos de faces rosadas e redondas. Nas ruas vende-se pães doces, bolos de milho, carne de alpaca. Não vejo lixo, nem sujeira. Nos becos sente-se um claro odor de urina. Nada mais.
               Na catedral, onde ainda existe pedaços de construções do império Inca, o guia me ensina que as pedras, como tudo mais na cultura, tem dois lados: o macho e a fêmea. Por isso eles conseguiam encaixá-las sem cimento e dessa forma as construções resistiam a qualquer intempérie.
Percebo que há alguém especial em toda história que me contam: o imperador Inca Pachamanca. E também ouço com admiração quando fico sabendo na cultura Inca não existe a palavra pobre.

             Cheguei a Cuzco numa semana especial. É época das festivais dedicadas à  Inti Raymi, a maior celebração popular da cidade peruana de Cuzco. Desfiles marcavam a data. Na belíssima praça central de Cuzco agora conhecida por Praça das Armas.diversas delegações apresentavam as suas coreografias, perante uma platéia de ilustres personalidades, que todos cumprimentavam com reverência.  Alegria, cor e movimento, numa dança tradicional pelas ruas de Cuzco. Enormes grupos provenientes dos diferentes cursos universitários, jovens de colégios e agremiações infantis. Era impressionante ver a mobilização coletiva da população cusqueña. Fiquei por ali horas vendo o desfile de roupas e alegorias e o rosto compenetrado dos participantes.
             À noitinha tenho fome e, como todo turista acidental, vou ao lugar indicado pelo recepcionista do hotel. O restaurante é bem ao lado e parece simpático. Sento-me numa mesa de canto e espero ser atendida. O cardápio não é muito diversificado e básica mento composto de CARNES. Mais uma vez me deixo guiar pelo inusitado e não ofereço resistência ante a indicação de um prato de Alpaca. Justo eu que há mais de 30 anos não como carne vermelha. Mas é blanca, disse o garçom.  Não sei se a falta de costume, mas a carne não me apeteceu. É seca e um tanto sem graça. Quando colocava a primeira garfada na boca um homem se posta à minha frente e, sem a menor cerimônia, vai logo dizendo: “Por que uma mulher hermosa está jantando sozinha?”. Um tanto sem graça respondi que simplesmente estava sozinha porque viajava sem companhia. Cheio de entusiasmo ele pediu para me fazer companhia e foi logo explicando que estava ali com sua família. Quando olhei para trás estavam todos rindo e acenando para mim. Disse que preferia comer sozinha, que me desculpasse mas não estava acostumada com aquele tipo de abordagem. Ele se desculpou, mas disse que gostaria que eu fosse a uma festa com ele. Era cusquenho sim, mas já tinha morado em vários países, inclusive no Brasil. Minutos depois ele voltava à carga. Queria porque queria que eu fosse a festa.
              Logo vieram a mãe, tio, tias, todos querendo saber meu nome, de onde era, etc e tal. Consenti que ele se sentasse e dividimos uma garrafa de vinho peruano. Juan me contou que morava com a mãe, era advogado e confiável. Diante da minha surpresa pelo fato de morar com mãe, aos 38 anos, me explicou que isso era normal por lá. Que a mãe era sozinha, precisava dele, não tinha sentido morar em outro lugar. Uma sociedade matriarcal, foi o que me pareceu. Ao pedir a conta, ele levantou-se para ir ao banheiro e só retornou depois de ter visto a conta paga – por mim, claro!
Não arrisquei a sair pelas ruas de Cuzco com um desconhecido. Achei melhor dormir cedo e acordar bem disposta para curtir a cidade em seu esplendor.
               Ele, visivelmente contrariado, pediu para me ver no dia seguinte. Concordei, mas não alimentei nenhuma expectativa. “Vamos assistir o jogo do seu País juntos”, argumentou.
No dia seguinte acordei cedo e fui visitar um local onde fazem massagens andinas. Meu corpo cansado e extremamente afetado pela altitude, pedia por uma massagem. O local, chamado Spa Andino, não tinha nenhum luxo. Ao contrário, chão coberto de pedrinhas, banheiros precários (mas limpos) e uma massagista que reza pedindo proteção antes de massagear meu corpo com óleo de amêndoas. Pago oitenta soles pelo serviço e ela se oferece para me levar à um curandeiro, que “vai me ajudar com as dores da minha alma”. Temendo um investimento fora do meu alcance, prefiro conhecer a feira de artesanato e descobrir que por lá não existe preço fixo: você é quem oferece o preço para depois haver a negociação. Vale a pechincha. Compro alguns xales e um tapete feito de lã de alpaca.
              Logo saio pra procurar um lugar para assistir o jogo do Brasil. Há muitos bares, mas nenhum tem o entusiasmo que procuro para ver uma partida da Copa. Lá ninguém parece interessado em futebol. Depois de andar muito, descubro através do concierge de um hotel 5 estrelas que existe um bar perfeito para isso. Ando em círculos procurando o The Crow, mas  depois de algum tempo acabo desistindo e entro no primeiro onde vejo um cartaz anunciando o jogo. Para minha surpresa era o The Crow.
               O lugar, uma versão casquinha de pub inglês, é aconchegante e tem vista para praça das Armas. Está vazio ainda. As moças que me atendem garantem que depois chegarão outros torcedores. Elas torcem pelo Brasil. Pelo algo para comer enquanto espero. E logo me trazem um prato de inspiração indiana, com muito curry e caliente que degusto com prazer enorme, embora a língua fique um pouco adormecida. Mas nada que uma cerveja casquinha não dê jeito. Logo chegam os primeiros clientes, a maioria argentino, nenhum brasileiro. Assisto o jogo em território “inimigo”, mas logo percebo que em Cuzco não existem animosidades, apenas turistas, gente que não está lá para acirrar disputas, mas para conhecer outra cultura.
             Faço até amizade com argentino, que se diz documentarista “como o Fernando Meireles”, brincou. Estava lá há seis meses filmando a selva andina. Conversa interessante,papo enriquecedor. E logo veio ele com a fatídica sugestão: “Aceita tomar um Pisco’souer”. Digo não, pelo amor de Deus! Pisco é um perigo! Mas ele pede que a bar tender prepare o drink na minha frente, enquanto ele discorre sobre os ingredientes: \pisco, limão, clara de ovo e açúcar batidos no liquidificador. Parece bom, mas pra mim continua sendo uma espécie de caipirinha à moda de Cuzco. Experimento um gole, mas decreto: a bebida não é pra mim. Melhor para jovens com fígados e estômagos fortes. Agradeço a gentileza mas tenho que voltar ao hotel e me preparar para meu destino final, a realização do meu sonho: conhecer as ruínas da cidade perdida dos Incas – Machu Pichu.
               Acordo às três da manhã, sob um frio gélido, a cabeça estranha e ainda os efeitos da altitude. Tomo chá de coca e entro na van rumo a uma cidade próxima e troca de veículo. As chuvas de janeiro acabaram com parte da ferrovia e é preciso fazer parte do percurso de carro. Ou à pé, na famosa trilha dos Incas. Coisa que infelizmente não tenho tempo hábil para fazer.
Na pequena vila estacionamos a van perto de outras dezenas de veículos. Frio intenso, filas de turistas e tíquete na mão para embarcar nos ônibus da companhia de trem. Mais meia hora de percurso e ouço pela primeira vez o som da língua portuguesa. Um pequeno grupo de mulheres que falam sem parar. Todas brasileiras, do Rio. Uma delas faz muxoxo quando tento uma abordagem. Não sou bem-vinda ao grupo, concluo. Tudo bem, vou continuar minha viagem solitária. 
              Em Pisco-Pisco, de onde saem os trens, desembarcamos do ônibus e, em fila, caminhamos até a estação. O trem é confortável, com poltronas, mesinhas e serviço de bordo. Junto comigo viajam um japonês de cara fechada, um indiano de rosto afável e uma guia peruana com quem logo estabeleço contato. O indiano, radicado nos EUA, logo entra na conversa. Percebo que não é por acaso que indianos me fascinam. O homem se revela sábio, cortês e admiravelmente afetuoso com uma estranha como eu. Viajava com a família e tinha uma guia especialmente para o grupo de 10 pessoas. Entre as várias pérolas que ele me entrega em inglês com sotaque indiano, guarda essas: “Todas as religiões tem a mesma finalidade: encontrar o Deus que existe dentro de nós“, “Não se preocupe por viajar sozinha, a gente nunca está só“: “As coisas são como são, só precisamos aceitar“. Não resisto e me emociono. Tento lhe dizer o quanto admiro sua cultura, mas meu inglês não alcança as palavras exatas. Ele sorri e parece entender mesmo assim. Ao chegar em Águas Calientes descubro que não tenho guia para me levar à Machu Pichu. Converso com um e outro, mas ninguém tem meu nome nos cartazes. Um guarda na estação se oferece para me ajudar. Chama um amigo, também guia, que pega o telefone e disca para a agência em Cuzco. Em poucos minutos sou informada que o guia me espera na entrada da cidade.
              Entro no ônibus que me leva à Machu Pichu e logo vejo as brasileiras que também embarcam junto comigo. Ao meu lado vem sentar-se uma mulher muito graciosa, morena, baixa e alegre. Pergunta se estou bem e de onde sou. Respondo que sou brasileira e ela conta que é guia do grupo carioca. Mas você não fala muito, me diz. Respondo que sou mineira. “Ah os mineiros falam pouco mas na hora certa”, diz. Conto que estou ali em busca de algo mais profundo, mas que não encontrei nada ainda, nem ninguém. Ela tira da bolsa três folhinhas de coca e me ensina um ritual: meditar em determinado lugar, uma pedra rosa. Também me oferece um algodão embebido num perfume com a orientação de passá-lo no corpo com a mão direita e jogar fora com a mão esquerda. “Tudo vai dar certo”, ela me diz.Não resisto e choro enquanto ela segura minha mão. Depois me entrega o cartão com seu nome: Maria Teresa. As coisas, finalmente, estão acontecendo!
                 Machu Pichu
                  As imagens das ruínas de uma cidade Inca rodeada por pináculos esguios, num misto de verde e cinza, vegetação e pedra, são por demais conhecidas de todos.  A entrada é feita por um local onde, após uns quantos degraus, se avistava Machu Picchu de um ponto de vista superior. Dei por mim completamente rendida, imóvel, perante a magnificência do que os meus olhos observavam. Machu Picchu é um lugar arrebatador, mágico, impressionante. O dia não podia ser mais propício: dia 21 de junho quando se celebra o solstício de inverno. O céu claro e o sol radiante adornavam o cenário que se descortinava à minha frente. A caminhada a seguir se apresentava extenuante, mas nada, nada naquele dia tiraria o meu ânimo e felicidade de estar presente naquele lugar dos meus sonhos.
                O guia Francisco acompanhou o nosso pequeno grupo formado por duas argentinas e três chilenos. Passo a passo ele ia descrevendo a riqueza de um cultura e o trabalho de um povo superior que, infelizmente, não deixou escritos. Tudo que se sabe são histórias repassadas, pesquisas e algumas lendas e suposições.
A arquitetura é realmente incrível. Várias construções com enormes blocos de  pedras encaixadas, como templos, casas e palácios. A cidade de Machu Picchu foi descoberta somente em 1911 e revelou toda a eficiente estrutura urbana desta sociedade. A agricultura era extremamente desenvolvida, pois plantavam nos chamados terraços (degraus formados nas costas das montanhas). Plantavam e colhiam feijão, milho (alimento sagrado) e batata. Construíram canais de irrigação, desviando o curso dos rios para as aldeias. A arte destacou-se pela qualidade dos objetos de ouro, prata, tecidos e jóias.
                 Segundo Francisco, as lhamas que passeiam tranquilamente entre as pedras e o verde em meio as construções , foram domesticas e utilizadas como meio de transporte, além de retirar a lã , carne e leite deste animal.
O Deus dos Incas era o Sol (deus Inti ). Porém, cultuavam também animais considerados sagrados como o condor e o jaguar. Acreditavam num criador antepassado chamado Viracocha (criador de tudo).
Em verdade, a magia de Machu Picchu reside no fato dela nunca ter sido descoberta pelos espanhóis. Como protegida por algo mágico, eles nunca chegaram nem perto de lá. Portanto, foi um vila praticamente intocada e onde, hoje, pode-se ter uma idéia claríssima de como viviam os Incas.
                Ao caminhar pelas ruelas íngremes a cidade, templos começam a aparecer – como o do Condor, pássaro mensageiro das montanhas e uma das divindades mais cultuadas, e o do Sol. Este último conta ainda com espelhos d’água cuidadosamente colocados em espécies de cestos feitos de pedra. Nos espelhos, toda a via láctea podia ser observada à noite, somando conhecimento aos astrônomos Incas e permitindo previsões ingenuamente precisas. Quando olhei no espelho, juro, vi a imagem de um homem, talvez um inca. Fiquei arrepiada.
               Na chamada zona sagrada vemos a casa do sacerdote, em pedras pouco trabalhadas, o um conjunto de templos – incluindo o famoso Templo das Três Janelas. Nele, como se pode esperar, três grandes janelas trapezoidais permitem uma combinação perfeita de luminosidade e fazem um jogo de sombras sem paralelos. Nos solstícios, o sol da manhã, ao passar pelas janelas, formam imagens de divindades Incas, como o Puma, comprovando a genialidade dos seus arquitetos.
              Uma pequena pirâmide se avizinha, apresentando-se como observatório Inca. Mais uma vez, jogos de sombra e cálculos precisos indicam as melhores épocas para se plantar todos os tipos de sementes e apontam para o norte exato, que pode ser confirmado por qualquer bússola. De frente para a pirâmide, uma grande zona plana, verde, servia de praça central e separava a zona urbana da zona industrial. Finalmente descemos em direção à uma câmara mortuária, um pequeno corte numa pedra já que segundo Francisco, os deuses eram colocadas lá em posição semi fetal. O local, segundo ele, permite que façamos pedidos e coloquemos moedas nas entranhas da pedra. Todos nós, claro, seguimos a orientação. Eu peço para voltar.
                 Ao fim da caminhada um dilema: como encontrar o lugar apontada por Maria Teresa onde deveria meditar e desenvolver o ritual proposto? Francisco me aponta algo e diz que posso ir sozinha. Seu trabalho terminava ali. Ninguém no grupo se dispôs a ir junto. As argentinas, lindas e gentis me convidam para almoçar antes. Mas fico firme na minha decisão de caminha até encontrar o lugar sagrado. Com mapa na mão e indicação feita por Maria Teresa vou subindo as escadas de pedra. Encontro alguns guardas e peço ajuda. Um deles me leva até um ponto de onde, segundo suas palavras, está bem perto da pedra rosa. É um outro ângulo da cidade, de onde pode se avistar outras montanhas e abaixo um vale encantador. Caminhando entre pedregulhos e escadas íngremes chego ao local. Sem muita certeza pergunto novamente. Desta vez a um homem que parece um xamã. Cabelos longos, vestes brancas e uma corrente com enorme jóia em forma de sol no pescoço. Ele diz que sim, aquela é a pedra certa.
                  Tenho que dividir o pequeno espaço com outras pessoas, apetrechos de turistas e ao lado um bando de brasileiros que riem à solta, provocando os que estão a meditar. Faço um esforço para ignorar o barulho e coloco minha testa na pedra, como a guia orientou. Rezo, peço perdão, agradeço e faço pedidos. Em seguida cavo um pequeno buraco e enterro as três folhas de coca. Saio de lá, me encosto numa pedra e choro.
                 Caminho de volta e me junto às argentinas amigas para almoçar. No bufê ouço uma voz chamando: Friend! Era o indiano do trem. Não resisto e dou-lhe um abraço. Ele também me abraça e diz: tudo está certo!
Vou para a fila do ônibus que me levará de volta à estação de Águas Calientes. Gostaria de ter ficado por lá, como as argentinas que dormirão num luxuoso hotel e poderão tomar banho nas águas tépidas e visitar mais uma vez a cidade.
Não é minha hora. Na fila percebo uma linda mulher com um lindo chapéu. Não tiro os olhos dele. Pouco depois chega uma senhora de cabelos louros, roupa cáqui e olhos azuis. São amigas as duas. De repente a loura se dirige à mim e diz: “Você veio num dia muito especial. Você está recebendo muitas benções”. Sem saber o que dizer, apenas aceno com a cabeça num sinal de concordância.
                No ônibus ela se senta próxima de mim e, mais uma vez, me diz que tudo vai ficar bem. “Você é uma bruxa?” pergunto. Não, apenas sinto. Enquanto o ônibus se move ela me conta que nasceu em Cuba mas depois que Castro tomou o País foi morar nos EUA. A amiga ao seu lado nada diz, apenas sorri.
A loura me olha fixamente e fala em espanhol: “\meus guias estão me dizendo que as coisas que viestes buscar lhe serão concedidas”. Caio novamente em prantos. Ela espera passar e depois, segurando minha mão diz as palavras mais lindas daquele dia: “Tudo o que você precisa fazer é amar. Amar incondicionalmente. E ter fé!”
A viagem de 20 minutos chega ao fim. Elas descem na entrada de Águas Calientes. Presumo que vão ficar na cidade algum tempo. Não dizemos mais nada, apenas nos despedimos com um olhar doce e agradecido.
                 O ônibus me deixa próximo a estação. Mas antes de buscar o trem procuro um café. Preciso de algo que me faça voltar. Tomo um capuccino apreciando as pessoas, o lugar e a música andina tocada por um quarteto. Quero ficar ali. Mas o trem não espera. Passo pelas inúmeras tendas onde se vende artesanato cusquenho e me rendo a uma borboleta e a imagem do deus Inca, Pachacute. Acho que tenho de levá-lo comigo. Chego à noite em Cuzco e fico sem dormir até a hora em que chega a condução para o aeroporto.  Subo no avião com a certeza de voltarei no próximo ano. Os deuses estão do meu lado.

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  1. Diogo disse:

    Linda Cronica. Parabéns Thereza! Tenho certeza que será um recomeço pra vc. Boa sorte na sua nova vida.

  2. Ivana disse:

    Theresa, amei seu relato, é meu sonho também, por coincidência…me passe as dicas da agência depois. Um beijo

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