julho 13, 2011

Inicio minha viagem curativa em Alto Paraíso (GO), mais precisamente em Moinho, lugarejo distante 12 km da cidade goiana, famosa pelas cachoeiras e energia peculiar, incluindo esoterismo e episódios de OVNIS. Mas são os discos voadores que me levam à casa de Samvara, terapeuta alemã que trocou vida cosmopolita de Berlim por um pequeno pedaço de terra no meio do mato, em pleno Centro Oeste, há cerca de 20 anos. Sua casa é um pequeno/grande oásis de natureza, alegria e cura emocional. Fincada em meio a belas árvores, vegetação nativa e com direito a pequeno veio de água que forma um lago transparente, a casa é um chalé repleto de charme, simplicidade e limpeza.

No espaço terapêutico onde me instalo, fora da residência principal, tenho tudo que preciso,  inclusive o silêncio da natureza e o barulho, espécie de sinfonia, dos pássaros. Impossível não se sentir em paz num lugar assim. Entre meditações, técnicas de Gestalt e muita compaixão, descubro em apenas quatro dias o que levei a vida inteira para construir: o medo de ser quem eu sou. A ponta do iceberg que contém histórias mal contadas, excesso de crenças infantis, bagagens que não são minhas, dor de viver, medo de amar.

Entre um trabalho e outro, a vida, generosa que é ainda abre espaço para encontrar amigos antigos, novos e uma nova filosofia de vida: a filosofia da gratidão. “Tudo é perfeito do jeito que é”. Coisas que a gente ouve falar, mas nunca encontra tempo para experimentar. Obrigada Samvara, Baskar, Sathi, Niranjana, Taruno, Nadeeshe e todos que passaram por mim nesta jornada em Alto Paraíso. Um paraíso até no nome.

No caminho à terra natal, faço duas paradas afetivas. Na casa de Margôt, amiga do coração, onde ganho hospedagem, cocada, carinho, livro e carona para Arcos, bem próximo ao meu destino. Vou meditando no caminho, tentando conter o pavor de viajar de automóvel, e de vez em quando me belisco até doer, como forma de brecar os pensamentos negativos (técnica minha com inspiração nos monges do Himalaia) da viagem. O amigo gentil me acalma e dirige ainda mais devagar.

Chegamos de noite e atendo o pedido para seguir viagem à Lagoa pela manhã. Na casa ladeada por jardins e orquídeas que mais parecem pinturas, conheço Tonico de olhos azuis e simplicidade desconcertantes. A casa é de médico, mas quem sugere – e também faz – o remédio para aminha tosse é ele, jardineiro nas horas vagas e sábio no restante do tempo. Ele me conta que não assiste TV (“não tem nada de bom pra gente”), nunca come depois das 18 horas, canta em italiano para as plantas (com entusiasmo contagiante), se trata com plantas e ervas e tem alegria de viver que me dá certa inveja. Antes de ir, Tonico me diz que está louco pra arrumar namorada. Conta que já fez até promessa, mas na cidade não há mulheres sobrando. Prometo fazer propaganda dele, e me despeço já saudosa do seu riso solto. Obrigada Paulo César (de quem aprendi a gostar), Margôt, Tonico e todos com quem cruzei no caminho.

Em Lagoa volto no tempo com os pés no presente. Procuro amigos que não veja há tempos, parentes a quem nunca dei tempo, faço planos, ouço conselhos. Minha tia, mesmo doente, cozinha, sorri e agradece tudo e todos. Nos intervalos atende os amigos, vai à casa de um monte deles fazer pequenos favores: tingir o cabelo da vizinha; arrumar a festa de aniversário do afilhado, ajudar na mudança da amiga, tudo ela faz com amor e alegria. Uma benção minha tia Vilma! Que ainda insiste em carregar minha bagagem, mais pesada do que ela, não obstante as ordens médicas de poupar a frágil coluna.

Durante o dia ando pela cidade que descubro crescida e mais próspera, ando na bicicleta de cestinha na orla da lagoa, faço incursões noturnas no novo bairro moderno – e chique – onde antes era havia sítios e laranjal. E pratico, todo o tempo, algo que havia esquecido: cumprimentar as pessoas na rua, hábito interiorano que antes não valorizava, mas que hoje enche meu coração de alegria. Ninguém me pergunta de onde vim, pra onde vou, ou o que tenho. Eles apenas sorriem e me olham com o mesmo carinho da infância.

No caminho até BH paro em Divinópolis, terra de Adélia Prado e do meu amigo Karioca. Ele e sua mulher, Cristina, me recebem com mesa farta de bolos e pães de queijo, e compartilham a dor de perder o filho aos 21 anos. Não reclamam, não se revoltam, nem se lamuriam, apenas sentem. E ainda mantêm espaço no coração para o carinho e a amizade irrestrita. Tenho vontade até de ficar por lá, mas a capital me espera. Minha prima/irmã conduz o carro e divide comigo histórias, dores, dúvidas. É a paz em pessoa, a pura tradução de uma palavra pouca usada: compaixão. Ela me pergunta se tolerância é defeito e eu respondo que é virtude. Virtude para poucos, como Adriana.

Em BH troco afetos e experiências com dona Teresa, avó dos meus filhos, amiga do peito e solidária em todos os momentos. Com ela aprendo a arte do silêncio na hora certa, a doação infinita e a vontade de viver. Já Tony me ensina que perder os movimentos não significa perder a lucidez. Com apenas o movimento de uma das mãos, ele acaricia, expressa seu afeto, demonstra entusiasmo e fala das saudades que sente de Campo Grande. Grace e Kléber fazem de cada encontro uma festa, mesmo que haja desencontros e imprevistos pelo caminho.  Gilberto faz canjica e Silvana ainda insiste em arrumar matula pra viagem. Aprendo mais um pouco de generosidade e agradeço.

No convite da amiga, Lúcia, acontece a troca do bairro Santo Agostinho por Santa Lúcia, sem perder o foco na oração.  Ela me recebe com quarto impecável, travesseiros macios e mordomias cinco estrelas. Trocamos idéias, roupas, perfumes e impressões e boas risadas. Ela me ensina a rir de mim mesma. E ainda oferece sua generosidade explícita diante das águas que deixo cair na xícara de café.  Ao por do sol medito num banco da Praça da Liberdade, em meio ao burburinho de crianças, turistas e árvores.

De volta pra casa, retribuo o carinho do meu lindo Tom Tom, que driblou a carência se instalando na almofada de meditação do meu quarto e de lá só sai quando a fome bate. As plantas se ressentiram da minha ausência, peço-lhes desculpas e retomo os cuidados. Meu filho aproveitou o vazio e encheu a casa de novidades.  Equipou a cozinha, abasteceu a despensa e a geladeira, mudou alguns detalhes para seu conforto. Tudo é bom, tudo é perfeito. E eu agradeço.

Agradeço às viagens, o tempo, as pessoas, os amigos e a mim. Por não ter desperdiçado uma gota sequer do que o universo, em sua grandeza e benevolência, me deu. Obrigada. Mil vezes obrigada!

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